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O nome dos pais

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Não sei quantos de vós já viram um filho ser levado para uma sala de operações, deitado numa maca, com aquele olhar oblíquo, de baixo para cima, o mesmo olhar de medo que recordamos desde os primeiros sustos, da queda mais simples num qualquer baloiço, ao filme verídico mais difícil a que assistimos juntos: o pai sair de casa para não mais voltar. Não sei quantos de vós já viram desaparecer por momentos um filho, um desaparecimento cuja brevidade pedem em silêncio, viram as portas a abrir e a fechar, e a maca a afastar-se. Definitivamente dois mundos diferentes, o da saúde e o da enfermidade.

Sei que alguns de vós já viram um filho sob o efeito de uma anestesia geral, no recobro, e aguardaram com ansiedade o seu despertar, sem saber como se regressa ao mundo da consciência. E que alguns de vós também foram alertados por anestesistas experientes, que vos prepararam para o modo incerto como uma criança acorda. "Alguns voltam malucos, não leve a mal dizer assim, estou a brincar, mas, por vezes, não reconhecem logo os pais. Não se assuste." Como se fosse possível não ter medo que um filho deixe de nos reconhecer, mesmo que seja por instantes. E alguns de vós foram esses pais que, no recobro, tiveram de se apresentar perante o olhar atónito dos vossos filhos.

— Sou eu, a mãe.— Sou eu, o pai.

A mim aconteceu-me há uns dias. E, felizmente, não foi grave, nem dramático. Mas é uma experiência que não esquecemos: um filho no hospital, um filho deitado numa cama de hospital. É algo que não queremos que se repita. Nunca, nunca, nunca. Três vezes dito como se batêssemos na madeira, como se fôssemos supersticiosos. Mesmo quem não acredita em Deus, passa a acreditar um bocadinho nessas horas em que o hospital nos pega um filho ao colo, nesses momentos em que um filho tem de reaprender o nome dos pais. E é uma fé interesseira, passageira, eu sei, eu admito, mas tenho a certeza de que ninguém nos vai julgar, nem mesmo Deus.


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