Filme O Barqueiro, breve comentário |
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Por um instante, parei para relembrar a primeira vez que sobrevoei o rio Tejo. Lembro-me de que foi um amor à “primeira vista”: estava completamente absorvido pela beleza e luminosidade que irradiava as margens Sul e Norte. Conjecturo que essa seja uma imagem que muitas pessoas guardam com encanto. Entretanto, no meio de tanta boniteza, também “se escondem” a violência, a miséria, a exploração e as singulares histórias que, nas margens desse rio, são vividas todos os dias por centenas ou milhares de pessoas.
O recente filme O Barqueiro, do realizador Simão Cayatte, procura contar uma história a contrapelo das violentas contradições que o Tejo traz nas suas correntezas e nas margens que o comprimem (inspiração brechtiana). Entretanto, mais do que narrar a vida de um homem que esteve privado de liberdade por mais de 16 anos e que está na busca de se reconciliar com a filha pianista de 17 anos — que não fala com o pai há meia década, ao descobrir que ele não trabalhava em nenhuma plataforma na Noruega, mas, sim, encarcerado numa prisão —, aborda um drama social e familiar, contrapontisticamente ligado pela música e pelo rio.
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O segundo longa-metragem de Cayatte tem como plano de fundo o Tejo, mas que coloca em evidencia uma realidade invisibilizada, que, quando atravessarmos a ponte Vasco da Gama, não vemos (muitas vezes, com destino ao conhecido e visível outlet), das condições de trabalho análogas à escravidão em que muitas pessoas se encontram na apanha de amêijoas. A obra cinematográfica demonstra o modo como sobrevivem e laboram pessoas submetidas a condições sub-humanas e paupérrimas.
Trata-se, sobretudo, de força de trabalho imigrante — no caso do filme, tailandesa. Essas pessoas recorrem às mais diversas formas para suportar a situação de superexploração do trabalho. O filme salienta também outras dimensões, como o tráfico humano, os estupefacientes, a lógica de endividamento permanente destes trabalhadores com os seus “patrões”, a violência e a pobreza dos países de origem, entre outros aspectos.
Muitos estarão a pensar: “coitadas dessas pessoas”. É verdade: são vítimas de um modo de relação social e de produção assente na desigualdade e nas diversas formas de desumanização, que procuram justificar e legitimar as condições dos “novos escravos” do século XXI. Todavia, gostaria de ressaltar que as pessoas retratadas em O Barqueiro são também agentes de transformação dessa sociedade e produtoras de riqueza.
Afinal, se não fosse o trabalho exaustivo — muitas vezes com traços de escravismo —, os turistas não teriam “amêijoas à Bulhão Pato” para se deliciarem — a pandemia foi, aliás, tristemente didática ao demonstrar o quanto Portugal é dependente do setor do turismo, infelizmente. A grande maioria não imagina o sofrimento humano que se encontra naquele prato.
É um filme notável, pois provoca inquietações. Com longos planos, leva ao limite os quadros, colocando o espectador numa expectativa de fechamento da cena que parece estender-se mais do que o necessário. Uma metáfora imagética que acompanha o plano de fundo do filme.
Um desconforto reflexivo marcado pela fotografia sombria, em contraste com as poucas falas e com uma atmosfera dominada por silêncios narrativos. O que fazer com esse desassossego que o filme nos provoca?
Nenhuma obra de arte tem o dever de responder a essa questão. Contudo, entendo que alimentar um certo conformismo, mesmo que indiretamente, já é uma forma de resposta (perigosa). É nesse ponto que identifico um limite narrativo do filme.
Na verdade, trata-se de algo que encontramos noutros realizadores do gênero: um realismo crítico que assume uma estética da denúncia. Característica artística importante perante os sombrios tempos que nos circundam.
No entanto, a inquietação artisticamente trabalhada parece encaminhar para uma crítica resignada, algo que o próprio realizador coloca na boca das personagens: “Se for você, será outro”. Será melhor que venha outro barqueiro, mais humano do que o anterior? Ou devemos questionar e destruir este tipo de vida imposto aos subalternizados? Entre muitas outras interrogações.
A arte que se arrisca no espectro da crítica, como é o caso desta obra de Cayatte, parece perder algum do seu vigor e da sua potência memorialista e de visibilização dos dramas sociais ao limitar-se à denúncia.
Trata-se de uma obra corajosa, que desempenha um papel importante ao inscrever no imaginário social uma realidade quotidiana daqueles que laboram no Tejo em condições sub-humanas. Recomendo vivamente que assistam ao filme.