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Primavera presidencial

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Com o respaldo da maior votação na história da nossa democracia, António José Seguro inicia hoje as funções como Presidente da República. A sua vitória categórica simboliza a preferência dos portugueses pela união, honestidade e civilidade, após uma segunda volta disputada entre duas visões diametralmente opostas para o futuro do país.

Desta ampla maioria, que ultrapassou os dois terços da população votante, nasce uma acrescida legitimidade democrática para o exercício do mais elevado cargo do Estado, assim como uma maior responsabilidade. Seguro tem grandes desafios pela frente, mas é a pessoa certa para equilibrar o perfil da Presidência no atual quadro constitucional com as expectativas dos seus eleitores.

O primeiro grande desafio é a proteção da democracia. Rebater os extremismos e a política de fação, que utiliza o ódio como combustível para colocar portugueses uns contra outros. Defender a integridade das instituições, a separação de poderes e o Estado de direito. Todas são tarefas essenciais, ainda mais árduas quando a extrema-direita já circula nos corredores do poder.

A República de Abril é a fonte da nossa liberdade, democracia e Estado social. Os tempos pedem uma nova primavera, demonstrando que é possível trazer a mudança através da construção democrática – e não da rutura institucional –, preservando os valores consagrados na Constituição. Uma nova forma de fazer política: mais próxima, aberta e orientada pelo bem comum.

O segundo desafio é a estabilidade política. Não como fim em si mesma, antes como meio para uma estratégia nacional de longo prazo. Se o ritmo recente de dissoluções parlamentares promoveu uma cultura de imediatismo, aquilo que agora se espera é que a política retome o seu papel original. Em vez de exercício situacionista, que seja uma força transformadora para a vida das pessoas.

Ao Presidente da República não competem as correspondentes tarefas legislativas ou executivas, mas a sua magistratura de influência pode criar as condições para que os partidos trabalhem com um horizonte mais estratégico e menos tático. Dinâmica que contribuirá igualmente para esvaziar a política de soundbite e o populismo vazio de soluções.

António José Seguro terá a oportunidade para apresentar ao país uma via reformista e inconformada. Sem revoluções, messianismo e ruído. Com trabalho, integridade e seriedade. É aquilo de que Portugal precisa na Presidência da República

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O terceiro desafio diz respeito ao funcionamento do Estado. Não será surpresa apontar que existe uma frustração crescente com os serviços públicos, em particular nas funções fundamentais de soberania, como saúde, educação ou justiça. Ainda que António José Seguro não seja responsável pela sua gestão, há margem para que contribua positivamente a partir de Belém.

Equilíbrio, moderação e predisposição para o diálogo são características pessoais do próximo Presidente. Podem servir também de caminho para um futuro melhor, baseado em compromissos de parte a parte. À esquerda, admitindo o papel da eficiência em reconquistar confiança no Estado social. À direita, evitando rejeitar dogmaticamente a intervenção pública.

António José Seguro terá a oportunidade para apresentar ao país uma via reformista e inconformada. Sem revoluções, messianismo e ruído. Com trabalho, integridade e seriedade. É aquilo de que Portugal precisa na Presidência da República.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990


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