Inundações: é preciso identificar onde podem ocorrer vítimas

O recente acontecimento em Serpa, relacionado às recentes cheias e inundações que atingiram várias regiões do país, onde um homem morreu após o seu carro ter sido arrastado pela força da água, volta a evidenciar a necessidade de melhoria na forma como lidamos com desastres provocados por perigos naturais. Mais concretamente, sobre o grau de preparação da população e a ocorrência de comportamentos de risco nestes cenários.

Embora seja ainda necessário compreender todas as circunstâncias do caso ocorrido em Serpa, é plausível que fatores como a subestimação do perigo tenham contribuído para tal desfecho. Noutras ocorrências, não obstante a clara excecionalidade dos caudais, não se pode omitir a existência de erros na gestão do território, que incrementam a exposição em áreas indevidas.

Deste modo, é fundamental avaliar, de forma sistemática, a nível nacional, a probabilidade de ocorrência de danos humanos nas áreas mais críticas em termos de risco de inundação, para aumentar o grau de preparação da população, tendo em conta cenários extremos. Para isso, existem metodologias técnicas que permitem fazer estimativas aproximadas à realidade.

Através de um trabalho de investigação, aplicou-se de forma exploratória em Portugal uma metodologia para a estimativa de mortes devido a inundações em Áreas de Risco Potencial Significativo de Inundação (ARPSI), definidas nos Planos de Gestão dos Riscos de Inundações (PGRI) da Diretiva Inundações.

Trata-se da aplicação de uma metodologia, elaborada por investigadores do Centro de Pesquisa sobre Riscos de Inundação (FHRC, na sigla em inglês), da Universidade de Middlesex (Reino Unido), que assenta em parâmetros relativos à perigosidade, às características da área, à existência de população mais idosa, tipologia de edifícios e à existência de sistemas de aviso e alerta.

A estimativa de mortalidade devida a inundações foi realizada para eventos de cheia com um período de retorno de 100 anos e os dados de modelação foram retirados do portal do Sistema Nacional de Informação do Ambiente (Sniamb), nomeadamente aqueles referentes à extensão, profundidade e velocidade da coluna de água.

A título de exemplo, em Chaves, 79 pessoas encontram-se expostas ao risco de cheia no setor em análise. A estimativa aponta para 20 feridos e duas vítimas mortais (para eventos de cheia com um período de retorno de 100 anos). Em Esposende, onde 117 indivíduos estão identificados como expostos ao risco, a projeção indica 12 feridos e duas mortes. Mais preocupante é o cenário em Ponte da Barca. Com 230 pessoas expostas ao risco de cheia no setor estudado, a estimativa aponta para 23 feridos e oito mortes.

A morte ocorrida em Serpa deve servir como ponto de partida para uma discussão sobre como antecipar e reduzir danos humanos causados por inundações no território nacional

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De esclarecer que o valor de feridos e vítimas mortais neste estudo pode estar sobrestimado, devido essencialmente ao facto de existir um valor elevado de indivíduos residentes nas subsecções estatísticas que tocam a área inundável, apesar de não serem áreas totalmente afetadas pela cheia.

Um estudo do Instituto Potsdam para Investigação do Impacto Climático (PIK) mostra que a aplicação de medidas de adaptação, tais como medidas individuais de autoproteção e preparação para emergência em contexto de crise e catástrofe, reduziu as mortes por inundações na Europa em 52%, desde 1950.

Apesar de algumas limitações da metodologia e dos dados utilizados na modelação, trata-se de uma projeção que deve ser tida em conta na gestão do risco de cheia das áreas em estudo, relativamente a cenários extremos. Um caminho de exploração adicional da aplicação desta metodologia seria, por um lado, fazer a modelação das vítimas mortais tendo em conta os elementos expostos móveis (população flutuante) em diferentes fases do dia e, por outro, aplicar este estudo a todas as ARPSI de Portugal definidas nos PGRI.

No entanto, os episódios de cheias que marcaram os meses de janeiro e fevereiro deste ano demonstraram que o problema não se limita a essas zonas. Existem áreas que ainda não estão classificadas no âmbito da diretiva comunitária onde a exposição de pessoas e bens é elevada e onde os impactos podem ser igualmente graves. Outro ponto de melhoria seria também incorporar na metodologia a qualidade dos edifícios (material de construção) e não apenas o número de andares.

Assim, a morte ocorrida em Serpa deve servir como ponto de partida para uma discussão sobre como antecipar e reduzir danos humanos causados por inundações no território nacional, pois estas abordagens são de extrema importância no apoio e decisão de medidas de mitigação por parte dos gestores do risco.

Os autores escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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