E agora Cuba |
O neoliberalismo dos anos 1990 e das décadas seguintes tendeu a ser a armadura teórica para sustentar a longa fase passional que uniu a Europa ocidental aos Estados Unidas da América. Só agora essa situação histórica determinada por relações de hegemonia e dependência trouxe ao de cima o mistério imperscrutável de o país mais mortífero e funesto do mundo, nas palavras de Nelson Mandela, ter sido o mais odiado fora do continente europeu, mas o mais considerado e imitado desde Reykjavik a Lisboa.
Foi necessário entronizar um idiota narcisista para se alargar abruptamente a consciência e percepção colectivas de milhões de pessoas adormecidas nos vínculos da tradição e no fluxo melífluo das identidades individuais e do imaginário de Hollywood. O espectáculo da guerra é grotesco. Trump é grotesco. Alguém dizer, no ritual do comício, “Fúria épica: gosto desse nome” é grotesco.
Nos EUA, as campanhas anti-Trump sucedem-se, mas isso não basta. Ser norte-americano significa conviver diariamente também com disparates supersticiosos, com violência gratuita, com concessões a gente incorrigível, com insanidade social, com o capricho da preguiça mental. Mesmo no seio daqueles que contestam Trump (e o que ele representa), há quem inculque em si mesmo uma certa vocação para a imaginação nacional e para o vedetismo mundial – quem nasce norte-americano sente, não raro, repousar em si o olhar plural do resto do mundo, o efeito de plateia. Naturalmente, muitos norte-americanos há capazes de exprimir o seu asco por Trump, mas poucos seriam capazes de o fazer pelo país.
Desde muito novo, senti a influência dos EUA como ameaça a uma paisagem sociológica diversa, à sucessão de plurais para que o universo reenvia. A cultura norte-americana procurou, desde sempre, estabelecer os limites do seu horizonte na inevitabilidade da sua cosmovisão particular. E a França, em certa medida, combateu esse unanimismo com o universo dos plurais: a Palm D’Or de Cannes, a etiqueta Le Chant du Monde, a Harmonia Mundi, os filósofos do século XX. Mas igualmente os franceses cederam e ficaram expostos a boas e más influências, preferindo-se espectadores e imitadores aculturados.
Quando o Fausto, numa sua canção, escreveu "não me toques o 'Ibeat' à americana/ que esse já nós conhecemos na versão original", todos nós percebemos aquilo logo à primeira e soubemos separar as águas
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Sempre achei haver algo de indecente em os norte-americanos nos pedirem que nos associássemos às suas celebrações (o 4 de Julho, o Halloween, o Thanksgiving Day, o Super Bowl, o St. Patrick’s Day, o Black Friday, a noite dos Óscares…). É que nós íamos de bom grado e gostávamos. E sempre houve boas razões para isso. Porque há Tennessee Williams, Coppola, Steinbeck, Glenn Gould, os Woody (Guthrie e Allen), McCullers, Capote, Dorothea Lange, Capa, Sontag, Ralph Ellison, etc., etc. Apenas o carácter desajeitado e a ingenuidade intelectual permitiriam dizer ser possível odiar os norte-americanos. Isso é uma estupidez e é grotesco. Tal como não podemos odiar os iranianos. Nem os cubanos. A guerra é estúpida, infantil e patológica.
Quando o Fausto, numa sua canção, escreveu "não me toques o 'beat' à americana/ que esse já nós conhecemos na versão original", todos nós percebemos aquilo logo à primeira e soubemos separar as águas.
Essa gente, durante anos, projectou uma ilusão de segurança e fixou inimigos que podiam ou não ser os nossos. Eles, aliás, é que escolhiam os nossos inimigos. Agora, os ornamentos retóricos foram eliminados e com eles as orientações morais. Somos todos visados. O movimento oscilatório de Washington depende da teocracia de Jerusalém e deixou cair a máscara. Também eles estão à beira de um abismo.