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Leituras obrigatórias ou consciência obrigatória?

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10.04.2026

"Um povo de navegadores é um povo de afogados."In Paisagem com mulher e mar ao fundo, de Teolinda Gersão

Decidi usar este palco que o PÚBLICO me concede para algo diferente, misto de resenha, sugestão literária e dissertação sobre os perigos da perda de memória coletiva ou da ausência de conhecimento histórico.

Tomo como ponto de partida Paisagem com mulher e mar ao fundo, de Teolinda Gersão, obra inicialmente publicada em 1982 e reapresentada aos leitores em 2019 numa nova edição revista pela autora.

Desengane-se. Esta não é uma leitura que facilite a vida de quem decidir aventurar-se neste mar de letras. Não só o enredo — duas mulheres, duas gerações, marcadas pela dor da perda, num Portugal em que as pessoas sofriam em silêncio —, mas também a forma surpreende. Uma prosa poética, lírica, livre, com fluxos de consciência e variações de narrador, menos linear do que o habitual na literatura portuguesa, transposta numa mancha gráfica original; os parágrafos deslocam-se, a pontuação é solta. A escritora vive aqui a sua liberdade.

Mais do que para perceber, Paisagem com mulher e mar ao fundo é um livro para sentir, centrado nas emoções de quem habita as páginas, mesmo quando o narrador se dilui e o leitor (eventualmente) se dispersa: "Eu lavrarei a terra e semearei o campo, disse o homem ao nascer do sol. E eu mandarei a geada, e ela crestará a sementeira, disse a morte. E a semente germinará e a seara ondulará ao vento, disse o homem ao meio-dia. E o Sol queimará pela raiz, disse a morte. E nascerão espigas e darão pão, disse o homem ao pôr do Sol. E as larvas comerão as espigas, disse a morte, da mesma maneira que comerão o teu corpo. E a morte tirou a enxada das mãos do homem e cavou ela própria uma cova e o homem deitou-se nela e as larvas vieram e comeram o seu corpo."

Em Paisagem com mulher e mar ao fundo, viajamos até ao Portugal da Guerra do Ultramar, de Salazar, da ditadura. O título remete-nos para essa realidade: Portugal como paisagem mental e física; o mar como entidade misteriosa, devoradora de esperanças, força da Natureza que atrai e atemoriza. As mulheres, oprimidas, filhas, mães, esposas silenciadas, viúvas sofredoras, em segundo plano, ao fundo. "No início é um vazio, nada dói mais do que perder um filho."

Não existe um exagero factual em relação ao período histórico relatado, mas em pinceladas largas, centradas nas emoções, o leitor sente como as palavras desinformavam — a opressão cortava-as. O vocábulo "suicídio" não existia (nem "corrupção"). Em ditadura, tudo corria bem, não se podia pensar que as pessoas se suicidavam, que estranho seria isso. "Redacção à pátria, redacção à família, redacção a Deus, devemos amar a pátria, respeitar a família, adorar a Deus, devemos dar a vida pela pátria, honrar a família, respeitar a Deus, devemos deixar tudo para seguir a Deus, dar a vida pela família e sacrificar-nos pela pátria."

Entre as várias personagens, umas que representam o patamar ideológico do regime, outras, a adesão moral e a repressão sexual, há uma que desarma o leitor, que necessita de pensar um pouco antes de a reconhecer: O.S., uma entidade, a omnipresença que tudo garantia.

O O.S. é Oliveira Salazar, líder do Estado Novo, regime autoritário que governou Portugal durante mais de 40 anos, de 1932 até à sua queda, em 1968, e depois em espírito, através de Caetano, até 1974. É importante escrevê-lo assim, com toda a clareza, para que a memória não se dilua.

Quarenta anos, uma geração marcada. "A mulher sem desejo nem corpo, porque só ao homem pertencia o desejo e o corpo."

Apesar de uma prosa que angustia, asfixia, das palavras que se precipitam em nós, e do que fica nas entrelinhas, este livro de Teolinda Gersão termina em esperança, na revolução que se avizinha.

Já que está em cima da mesa a revisão das leituras obrigatórias no 12.º ano com a possibilidade de José Saramago deixar de ser leitura obrigatória e a abertura à escolha de obras de Mário de Carvalho, porque não considerar também Teolinda Gersão e o seu Paisagem com mulher e mar ao fundo?

Num tempo marcado pela desinformação, pelo crescimento do populismo e pela normalização de discursos perigosos entre os mais jovens, esta leitura poderia contribuir para uma consciência histórica mais crítica e, talvez, para que a ideia de "três Salazares" nunca chegue sequer a ser equacionada como possibilidade.

"Educar era isso, gravar no espírito, desde a infância. Aí ficariam as palavras para sempre, e um dia não seria mais possível apagá-las, fariam parte da pessoa. Era necessário, por isso, fornecer às crianças as palavras certas e livrá-las das falsas. Preservá-las do mal a todo o custo. Separar os sexos, as salas, as escolas."

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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