Tudo começa numa casa |
Onde se pode chorar? Uma jovem, com emprego estável, vive com o companheiro. Quando discutem, ele refugia-se no computador. Pergunto-lhe para onde vai, nesses momentos. “Fico lá, a chorar”, confessa timidamente. Vivem num T0 e não há para onde ir. Como psiquiatra, aprendi a desemaranhar os sintomas, mas o que pairava naquela consulta era a ausência de um lugar.
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Aquele T0 tinha teto e tinha paredes, mas faltava-lhe a casa. Bachelard escreveu que “a casa é o nosso canto do mundo”, atribuindo-lhe a função de âncora, o lugar onde se cria e se sonha. Antes de nascermos, formamo-nos no útero da nossa mãe, o primeiro universo que conhecemos. Ao fim de nove meses, é a casa que ocupa esse lugar de abrigo. É em casa que conhecemos os nossos pais, que comemos a primeira comida, que muitas vezes damos os primeiros passos. São essas experiências primordiais, que vamos interiorizando, que vão construindo aquilo que somos. A interioridade humana precisa de um espaço protegido para nascer, experimentar, brincar, criar e manter-se consistente ao longo da vida. A casa torna-se assim um espaço intermédio e seguro........