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Teletrabalho e inclusão: resposta a muito mais do que a crise energética

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Num mês em que se tem discutido a implementação alargada do teletrabalho como medida específica para fazer face à crise energética, nomeadamente via sugestão da Comissão Europeia, ocorre-me referir outras vantagens de importância considerável que esta prática pode trazer: a inclusão das pessoas com deficiência e, em particular, os autistas.

Apesar de os dados em Portugal relativos à empregabilidade de pessoas autistas serem parcos, é sabido que este valor tem estado, frequentemente, abaixo do desejável. Tal facto não se prende necessariamente com a incapacidade de autistas contribuírem para produção de trabalho de qualidade, mas muitas vezes com a dificuldade de prosperar e manter a sua saúde em ambientes adversos, bem como com os obstáculos que se colocam nos próprios processos de recrutamento, por conflituarem com características muito comuns nas pessoas autistas, nomeadamente:

Sensibilidade sensorial: é muito comum no autismo a sensibilidade extraordinária a estímulos exteriores, como o ruído, as luzes e os cheiros. Só este facto, em particular num local desconhecido como ocorrerá numa entrevista de emprego, pode ser suficiente para gerar um meltdown (as chamadas “crises”) que tornem a conquista da vaga impossível.

Previsibilidade: no trabalho em casa, é possível controlar as condições de uma forma que um ambiente externo não permite. Essa é, muitas vezes, uma necessidade primordial para as pessoas autistas, que têm dificuldade em lidar com alterações ao seu contexto ou quotidiano.

Sobrecarga social: É frequente a tolerância de autistas para a constante presença de pessoas ser inferior à da generalidade da população. Esse aspeto, aliado à necessidade de dialogar constantemente sem um espaço de recuperação da “bateria social”, torna, não raras vezes, os ambientes em verdadeiras “torturas” para o cérebro autista. O maior isolamento social que o teletrabalho traz acaba por ser uma fonte de regulação que permite que as tarefas do dia disponham de mais energia da pessoa para serem realizadas.

Claro que o exposto não se aplica necessariamente a todas as pessoas do espetro, havendo quem nele se encontre e não se reveja nas dificuldades citadas. Contudo, tanto a minha experiência como a de outros autistas validam este ponto: o trabalho remoto pode ajudar a criar vidas com mais significado. Trabalhar não é só um meio de subsistência, mas uma forma de nos sentirmos contribuidores para a sociedade e para o mundo, bem como de promovermos a nossa independência.

A ccrise energética não é a única crise que enfrentamos, e a inclusão é uma responsabilidade de todos

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Existem ainda outras razões mais complexas que se dissipam com o trabalho em casa e que são, frequentemente, comuns a outras pessoas com vários tipos de deficiência, como é o caso do medo do julgamento pela diferença, o mobbing e o confronto direto com as próprias dificuldades de uma forma mais impiedosa.

Posto isto, e dado que estamos a terminar o mês de abril, dedicado à consciencialização para o autismo, faço o apelo a que se pense também na inclusão das pessoas autistas. Adicionalmente, e de forma mais alargada, proponho que se reflita também nesta opção como um método eficaz para verdadeiramente incluir as pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Porque a crise energética não é a única crise que enfrentamos, e a inclusão é uma responsabilidade de todos.

A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990


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