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Canja de galinha

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25.05.2026

“Que sopa tem hoje?” Sempre que almoço num desses lugares sacrossantos, cada vez mais escassos, a que chamamos “tascas” de Lisboa, faço a mesma pergunta, espreitando sobre o balcão para a cozinha de onde derramam cheiros, fumo e o ruído de tachos, que se misturam com a voz estridente da pivô das notícias na televisão, que se ergue como um altar ao fundo da sala. Normalmente a resposta à pergunta é acompanhada da unha, mais ou menos pontiaguda do dedo indicador, frequentemente peludo, do empregado — que a maioria das vezes acumula a função de dono do estabelecimento familiar — enquanto abre repentinamente a ementa num gesto teatral de ilusionista, e exibe solenemente o título da sopa do dia, escrito numa caligrafia perfeita, redonda, rococó, como em tempos se exigia na breve escolaridade obrigatória, onde as curvas de letras encaracoladas eram sinal de esmero.

Quando o dia corre bem, há sopa de feijão, de nabiças, de grão, de agrião. Quando o dia corre mal: canja.

“Canja não é sopa”, gracejo, com a consciência prévia de que a piadola não surtirá qualquer alívio cómico no meu interlocutor, pelo contrário, anos de tentativa só me demonstram que não se brinca com a canja — estandarte glorioso da gastronomia caseira de quem com pouco faz muito, e provavelmente o último reduto para um dia na ementa em que não houve tempo para ir buscar legumes frescos ao fornecedor.

O meu interlocutor desvia invariavelmente o olhar, sisudo, recusando-se a atribuir qualquer leviandade ao assunto, fecha a ementa num estrondo, ameaçando guilhotinar os meus cabelos soltos sobre os ombros, e........

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