O julgamento do mês |
Neste mês de Janeiro ocorrerão dois eventos da maior importância – vão cruzar-se, vão durar em simultâneo sem que nenhum deles consiga eclipsar o outro. Os portugueses serão obrigados aos dois, não poderão evitar que aconteçam e ficarão expostos às consequências de ambos.
Há um grande potencial de incerteza em cada um deles e daí que alguma curiosidade mórbida tempere a ansiedade dos que esperam – os portugueses propriamente ditos habituados às glórias tugas, que sabem de cor a 2.ª estrofe do hino ou quantos golos Cristiano Ronaldo marcou com o pé esquerdo em jogos da selecção disputados à chuva mas, igualmente, aqueles que simplesmente nasceram em Portugal e ainda não descobriram nenhuma razão épica para esse acidente.
São esses eventos, por ordem de importância, o desenvolvimento do processo judicial em que envolveram o Engenheiro José Sócrates e a eleição para Presidente da República.
Outros acontecimentos interiores podem parecer mais importantes, mas não são. São pequenos saltinhos na estrada da vida, que em Portugal se encontra em mau estado, são poucos e são moles como gelados mal acondicionados. Segundo se antevê não andarão longe de alguma legislação para resolver a falta de casas e a continuidade de José Mourinho no seu emprego. Por maiores que pareçam, o primeiro desses assuntos já não é considerado importante há muitos anos e o segundo é regulado por leis laborais que não hão-de ser mudadas tão cedo. Relativamente a essas e outras disfunções domésticas o sentimento generalizado – do português médio-baixo – é de habituação. Existe uma convivência resignada com o que está mal e funciona com defeito, uma vez que ainda podia estar pior e ainda funciona. Falta aos portugueses a percepção objectiva do que repugna. Ao fim de 900 anos de pequenez, raras vezes interrompida, consolidou-se um convívio confortável com a natureza sebenta do dia a dia. Ao português entusiasma um título desportivo, babuja-se por uma selfie, acredita que a vida vale a pena se escuta um artista esganiçar os seus dramas concubinais. E se um dia, em Janeiro, a emoção de umas eleições se vem juntar ao excitamento crónico do justice paper de José Sócrates, está o mês feito.
Sobre os negócios estrangeiros também a insipidez é gritante. Nada de belo e útil se encontra na febre de limpeza que afecta o presidente dos Estados Unidos, que dizem ser doido. A China fala chinês, não se entendem. E em outros lugares habitados, onde subsistem guerras tradicionais, as alegadas mortes decorrerão do uso menos cuidadoso de engenhos com potencial para causar ferimentos. E depois, a Europa prospera, vai-se aguentando. Aos portugueses cabe neste mês de Janeiro despesa mais grossa – assistir à gorda parideira eleitoral e ao monstruoso Golem da Justiça.
O assunto do presidente da República suscitará as maiores dificuldades esta semana – e talvez nas 3 semanas subsequentes, se o esclarecimento do povo não for suficiente para não votar em nenhum candidato e cair na aventura de atribuir a dois deles o prémio de uma segunda volta. Serão semanas reservadas por lei ao confronto de ideias, uma disposição inconsequente num país onde a maioria tende a não cumprir a lei por opção e a minoria, seja ela quem for, nem sequer pode ser obrigada a isso. A lei que reserva penosas semanas à discussão de ideias não será aproveitada, tem sido assim e continuará a ser. Em alternativa, os candidatos prosseguirão reunidos à volta dos antigos consensos sobre a natureza dos casus belli, sobre o local dos duelos e o tipo de armas a usar.
No que respeita a causas são preferidas as que melhor se ajustam à vociferação e ao lugar comum. Algumas delas são inevitáveis nos programas de televisão em que participam candidatos, porque os entrevistadores se prepararam para elas e sabem, coisas que aprendem nos seus cursos de jornalismo, que uma boa discussão de 1 minuto e 30 segundos sobre política europeia faz toda a diferença. Assim, as opiniões sobre economia fundam-se em dois argumentos princeps: um artigo do “The Economist” e a opinião da rua. A primeira é falaciosa e a........