Não, as especialidades médicas não são todas iguais

Todos os anos, na última semana de novembro, os títulos dos jornais são os mesmos: “Vagas por preencher demonstram crise estrutural”; “Internato médico: quase 500 vagas vazias”; “Cerca de 20% das vagas para especialidades médicas ficaram por preencher.” E não é de agora. Em 2023 lia-se “Maiores hospitais de Lisboa só conseguiram preencher quatro vagas de Medicina Interna” e “Mais de 400 vagas ficaram por preencher no concurso para a escolha de especialidades”. Em 2024 repetiu-se o padrão com “Internato das especialidades com menos vagas para 2024-2025; Medicina Interna é a mais afetada”, e os dados de 2023, divulgados em 2024, confirmavam que “18% das vagas para formação especializada não foram preenchidas”. Este problema é particularmente agudo na região de Lisboa, onde o ordenado de um médico não chega para pagar a renda de casa.

Este ano, novamente, cerca de um quinto das vagas (quase 500) ficaram vazias e cerca de um quinto dos médicos (quase 600) não escolheu especialidade nenhuma, permanecendo mais um ano (para alguns, indefinidamente) como indiferenciados, a fazer tarefa ou a trabalhar noutras áreas onde o conhecimento médico é valioso — gestão, indústria farmacêutica, tecnologias da saúde, política, para referir as mais óbvias.

A primeira conclusão que podemos tirar é que não adianta abrir vagas de Medicina indefinidamente. Isso não vai resolver a falta de médicos no SNS. Também parece que as vagas de especialidade não estão a ir de encontro às necessidades e algo tem de ser feito para inverter esta tendência.

O modelo que temos assume que todas as especialidades são iguais. A carreira médica não faz distinção entre especialidades. É um erro que se perpetua. As especialidades não são iguais e — assumindo a polémica — não são igualmente importantes do ponto de vista de quem precisa de nós: os doentes. Desde logo, naquilo que é mais fundamental: nem todas salvam vidas. Isto não é insulto nem desvalorização; é uma constatação objetiva. Há especialidades cuja ausência........

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