Em Portugal, o Natal é em Abril |
Há em Portugal uma data que funciona como o Natal dos laicos. Tal como o Natal cristão, o 25 de Abril tem a sua liturgia própria, os seus ritos obrigatórios, os seus hinos, os seus sacerdotes e, acima de tudo, o seu dogma intocável. Tal como o Natal, quem questionar o seu excesso arrisca ser tratado como alguém que odeia as crianças. Evelyn Waugh, esse católico beligerante que não poupava ninguém, teria muito que dizer sobre a solenidade com que uma revolução de há cinquenta anos é celebrada como se fosse a fundação do universo, e sobre a extraordinária falta de humor de quem a celebra.
Dito isto, importa ser preciso: o 25 de Abril aconteceu, foi relevante, e há razões para que ainda ressoe na memória colectiva. Há muita gente viva que sentiu na pele o que era o regime anterior. Num país envelhecido como Portugal, isso é natural e até compreensível. A proximidade temporal cria inevitavelmente uma intimidade que o 1.º de Dezembro de 1640, por mais glorioso que seja, já não possui para a maioria dos portugueses. A memória é assim: prefere o que tocou ao que nunca viu.
O problema aqui não é lembrar. O problema é a forma como se lembra – e o que se escolhe........