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Vamos falar de democracia aos estudantes de Coimbra ?

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06.03.2026

A decisão da Associação Académica de Coimbra de excluir o Chega das suas atividades pode ter sido celebrada como um gesto de firmeza moral. E esta decisão de excluir o partido Chega das suas actividades produzem o efeito inverso da intenção que as motiva.

O argumento formal é simples: autonomia associativa, coerência estatutária, defesa da inclusão. Tudo isto é juridicamente defensável mas a política não se esgota na legalidade e não tem respaldo exclusivo na lei. A política mede-se também pelo impacto simbólico e estratégico. E aqui começa o lado mais negro desta decisão da academia de Coimbra. Ao excluir um partido legal, com representação parlamentar, a academia não elimina ideias, mas oferece-lhes o melhor do mundo : um palco.

Um palco que é mais poderoso do que qualquer auditório estudantil: o palco da vitimização. Nada alimenta mais uma força populista do que poder dizer: “têm medo de nós”.
Nada une mais o seu eleitorado do que a narrativa da censura.
Nada simplifica mais o discurso do que transformar um debate complexo numa história binária: povo vs. elite. E a universidade enquanto símbolo de elite cultural é o adversário perfeito para essa encenação.

A democracia liberal não se protege eliminando presença. Protege-se expondo fragilidades argumentativas. Combate-se o radicalismo com inteligência, não com interdição. Há um equívoco perigoso na ideia de que excluir é resistir. Excluir pode ser emocionalmente satisfatório mas estrategicamente é infantil porque desloca o combate do campo das ideias para o campo da identidade. E no campo da identidade, os populismos jogam em casa. Além disso, abre-se um precedente inquietante: se a legitimidade democrática deixa de ser suficiente para garantir presença num espaço plural, então a linha passa a ser definida por maiorias circunstanciais. Hoje exclui-se um partido por o considerar incompatível com valores académicos. Amanhã alguém poderá considerar outro igualmente incompatível.

A democracia deixa então de ser um método e passa a ser um filtro moral. E quando a democracia se transforma em filtro moral, deixa de ser universal e passa a ser condicional. O paradoxo é cruel: ao tentar proteger valores democráticos, pode estar-se a enfraquecer o próprio princípio democrático que lhes dá sustentação. A extrema-direita cresce quando consegue dizer que o sistema não a deixa falar. Mas poderá desaparecer quando for convidada expondo as suas contradições e argumentos. A exclusão não derrota. Simplifica.
E tudo o que simplifica a política favorece quem vive da simplificação.

A questão não é gostar ou não gostar de um partido. A questão é perceber se a democracia é forte o suficiente para enfrentar ideias sem as interditar. Se não for, então o problema é mais profundo do que qualquer partido. Porque quando uma comunidade democrática começa a selecionar quem pode ou não pode estar presente no espaço público legítimo, está a deslocar o critério do campo jurídico para o campo moral. E o campo moral é sempre instável, mutável, sujeito a maiorias emocionais.

Ao retirar palco institucional, não se elimina o palco político. Apenas se muda o cenário. E, fora da academia, o debate já não é regulado por exigência argumentativa, mas por emoção, algoritmo e ressentimento.

Há ainda um risco simbólico mais profundo: a transformação da universidade num espaço de unanimidade moral. A universidade, que historicamente foi lugar de confronto, passa a ser lugar de filtragem. E quando a academia abdica da pedagogia do confronto, abdica também de parte da sua missão formativa.

Ensinar democracia não é ensinar concordância.
É ensinar conflito com regras. Se a regra passa a ser afastar o adversário em vez de o enfrentar, transmite-se uma mensagem perigosa: a de que certas ideias não merecem resposta, apenas ausência. E isso pode produzir uma geração menos preparada para o embate político real que é duro, imperfeito e muitas vezes desconfortável.

Existe também um efeito psicológico coletivo: a sensação de superioridade moral que acompanha estas decisões pode gerar conforto interno, mas raramente produz eficácia externa. Politicamente, a moralização excessiva da política costuma favorecer quem se apresenta como outsider perseguido. E aqui reside o paradoxo final. Ao tentar reduzir o espaço de um partido que cresce alimentando-se da ideia de exclusão pelo “sistema”, oferece-se precisamente o argumento que ele necessita para consolidar a sua base. O gesto que pretendia enfraquecer transforma-se em combustível narrativo.

A democracia não se mede pela ausência dos seus adversários.
Mede-se pela capacidade de os enfrentar sem abdicar das suas próprias regras. Se começamos a suspender o método democrático para defender a democracia, entramos numa contradição estrutural. Porque uma democracia que depende da exclusão ideológica para se proteger revela insegurança e insegurança institucional é terreno fértil para o radicalismo.

No fim, talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: Estamos a combater ideias ou estamos a tentar evitar o incómodo de as ouvir? Se for a segunda hipótese, então o problema não está no partido excluído. Está na nossa confiança na força do argumento. Uma democracia que deixa de confiar na força do argumento começa, lentamente, a confiar na força do veto. E quando o veto substitui o debate, a vitória já não pertence a quem exclui mas pertence a quem consegue transformar essa exclusão em prova de razão.

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