O mal-estar dos que não votaram no Chega |
O crescimento do Chega em Portugal deixou de ser um alerta e tornou-se uma realidade. O partido de André Ventura é hoje uma das forças políticas com maior representação e visibilidade no país. O seu discurso directo, polarizante, frequentemente populista, encontrou eco num número crescente de eleitores — o que, por si só, já diz muito sobre o mal-estar que atravessa a sociedade portuguesa.
Todavia, este artigo não pretende analisar quem votou Chega, sobretudo do ponto de vista político e social. Pululam análises com estas explicações. Urge, porém, dar atenção à reacção consternada, por vezes angustiada, dos que não votaram na extrema-direita e que se confrontaram, nas últimas eleições, com a ascensão de um discurso que lhes parece hostil, regressivo e, até, perigoso. É sobre essa perplexidade silenciosa — muitas vezes não representada — que importa, também, elucidar.
Na semana que se seguiu às eleições, quase todos os pacientes trouxeram este tema para a sessão. Uma mulher de 39 anos, professora universitária, disse, com lágrimas nos olhos: “Sinto que não reconheço o meu país. Nunca imaginei que tanta gente pensasse assim.”
Um empresário de 54 anos desabafou: “Talvez tenha sido ingénuo. Mas doeu. Como se tivesse perdido algo que nem sabia que tinha … uma espécie de fé discreta na decência colectiva.”
Uma jovem universitária, nascida em Portugal de pais cabo-verdianos, disse-me, num tom, entre o medo e a lucidez: “Eu sei que não sou portuguesa para todos. Mas agora tenho medo que esse ‘não’ venha da maioria.”
Não é exagero afirmar que muitos portugueses viveram aquele resultado como um trauma simbólico: não por discordarem,........