Fado sem lamento |
Portugal, em 2011, viu-se na necessidade de pedir apoio financeiro externo. Não é mau lembrar o óbvio. A economia estava de rastos, as finanças públicas à beira do colapso e os serviços essenciais em ruptura.
O governo de Sócrates (sim, o governo do PS de Sócrates) entoava o canto da sereia e arrastava o país para o naufrágio. O défice galopava, o custo da dívida pública disparava, a instabilidade social recrudescia.
Punha-se o problema de saber se haveria dinheiro para pagar o salário dos funcionários públicos no fim do mês. Talvez não houvesse e achou-se melhor pedir ajuda financeira externa.
Nessa ocasião, Portugal testou os limites da sua resistência e aceitou libertar-se da mediocridade, da irresponsabilidade, da incompetência e da cupidez das elites que haviam sequestrado o Estado e sacrificado o bem-estar dos portugueses.
Na história dos Estados, há momentos, raros e quase sempre incómodos, em que a gravidade da situação existente impõe às lideranças políticas que falem verdade e deixem de seduzir o eleitorado com realidades paralelas e falsas esperanças. Nesses momentos, não nos podemos dar ao luxo de enterrar a cabeça na areia. Temos mesmo de fazer o que tem de ser feito.
Em 2011, desafiando a lógica eleitoral, abdicando da demagogia que parece fazer as delícias do eleitorado, rejeitando juízos de cinismo oportunista, Pedro Passos Coelho apresentou-se ao país, oferecendo-se para encetar com o país um caminho inevitável.
Merecendo a confiança dos portugueses, fez o que tinha de ser feito. Na agudeza daquela conjuntura, de tantas dificuldades para tantos portugueses, escolheu ser governante em vez de um mero político. Como um dia alguém disse, a diferença entre um estadista e um político é que este decide a pensar nas próximas eleições, enquanto o primeiro decide a pensar nas futuras gerações.
Tenho para mim que Pedro Passos Coelho e o Governo por ele liderado optaram por governar com um sentido de futuro, procurando, não sem sacrifícios, tirar o país do buraco em que a irresponsabilidade e a insensatez de muitos o haviam sepultado.
Entre 2011 e o final de 2015, Portugal passou da iminência da bancarrota à recuperação gradual de credibilidade, estabilizou as contas públicas, evitou o colapso dos serviços e regressou aos mercados, numa trajectória que à partida parecia impensável.
Esta constatação não pretende idolatrar números, mas apenas reconhecer que o país não faliu porque alguém se dispôs a pagar o preço que impediu essa falência. Esse preço, convém lembrar, foi pago pelos portugueses, pouco habituados a que lhes mostrem a realidade como ela é.
Mas o preço político das exigências impostas por um tempo particularmente difícil esse foi suportado por Pedro Passos Coelho e pelo seu governo. Mas a História tem os seus caprichos. Ainda que tivesse ganho as eleições, quiseram as esquerdas unidas ditar que era tempo de encerrar o ciclo de recuperação, para dar início a um de empobrecimento.
Quando esse ciclo se mostrou irreversível, o protagonista foi à sua vida. Não reivindicou glória, não abriu fundações, não escreveu memórias tardias com sabor a ajuste de contas. Não integrou Conselhos de Administração de grandes empresas, nem aceitou sinecuras públicas. Retirou-se em silêncio e com discrição. Entregou-se ao trabalho e à família num período que a vida tornou especialmente duro.
É nestes momentos que se reconhece o carácter dum estadista, na recusa em transformar a política num palco narcísico, na humildade que desagrada aos que vivem da espuma dos dias e com a sobriedade que desarma os que vivem do espectáculo e do gosto de chocar.
Com a infeliz geringonça, o país recuou. Sem visão reformista, sem coragem e sem sentido de Estado. Com as contas equilibradas, a famigerada “geringonça” renunciou ao desenvolvimento económico e à modernização do país. A ausência de rumo e de uma estratégia de crescimento não permite que ambicionemos um futuro diferente do que nos tem oferecido a mediocridade do passado recente.
Tem havido agora mais atenção ao que Pedro Passos Coelho vem dizendo. Sem pedir licença a ninguém, fala livremente do que quer, quando entende oportuno. Certo é que a sua palavra tem deixado algumas pessoas incomodadas. É muito estranho que se receba com desconfiança o que deve ser olhado apenas com esperança. A sua coragem serena, rara, ponderada, firme e decidida faz muita falta ao nosso país.
Pessoas como Pedro Passos Coelho, que já deram provas de que governar é sobretudo servir o bem comum, nunca estão a mais na política. É de pessoas desta índole que depende, em larga medida, o que ainda podemos ser.
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