“Magnifica Humanitas”: pensar a IA do lado da pessoa |
Nos últimos anos, tenho procurado pensar a inteligência artificial a partir de uma preocupação central: perceber o impacto que a tecnologia pode ter sobre a pessoa. A IA pode ser pensada teoricamente, mas não podemos ignorar que ela está presente na escola, no trabalho, na política, na comunicação, na infância, na guerra, na verdade pública e até na forma como cada um de nós se está a habituar a decidir, recordar, escrever, escolher e pensar. Por isso, a publicação da primeira encíclica do pontificado de Leão XIV, precisamente sobre a tutela da pessoa humana no tempo da IA, despertou-me imensa curiosidade.
O documento tem por título Magnifica Humanitas e foi assinado a 15 de maio, exatamente 135 anos depois da Rerum Novarum, de Leão XIII. Tal terá sido deliberado: assim como a questão operária obrigou a Igreja, no final do século XIX, a repensar a justiça perante a industrialização, também a IA é agora tratada – a meu ver, de uma forma muito mais inovadora e bem conseguida – como uma nova questão social, talvez a mais estrutural do nosso tempo. Não pretendo, nesta primeira leitura, fazer uma análise completa da encíclica, muito menos fechar respostas que o próprio documento parece querer deixar sob tensão. Irei, antes, assinalar um conjunto de perguntas que a encíclica ajuda a formular, em particular na linha das preocupações que tenho vindo a levantar nestas crónicas: que ideia de pessoa está a ser pressuposta, condicionada ou substituída pela tecnologia que estamos a construir?
A iniciativa papal é, em si mesma, de se saudar. O debate público sobre a inteligência artificial tem-se afundado numa espécie de vaivém previsível entre o deslumbramento tecnológico e o pânico civilizacional, como se a alternativa estivesse sempre entre entregar tudo à máquina e fugir dela para uma qualquer nostalgia analógica. Ora, a verdade é que a tecnologia avança mais depressa do que a nossa capacidade de avaliar, ou até da narrativa política disponível para a discutir, deixando a sociedade a correr atrás de um problema que, muitas vezes, ainda não sabe nomear. A entrada de uma instituição com dois milénios de reflexão sobre o que faz de nós humanos oferece a este debate uma lentidão, uma espessura e uma exigência moral que só pode ser vista como muito útil.
Como ponto prévio, coloco eu próprio uma questão inicial, essencial para a análise do problema central da IA: a pessoa precede a máquina, ou estamos a aceitar, quase sem nos aperceber, que a máquina passe a definir a pessoa? A forma como a IA está a ser desenvolvida e comercializada torna esta questão inevitável. Não estamos perante ferramentas neutras, colocadas à disposição de utilizadores livres, mas perante sistemas desenhados para antecipar comportamentos, orientar escolhas, substituir mediações, modular preferências e reorganizar a experiência humana a partir de arquiteturas opacas. Ora, se os cidadãos dos séculos........