Vejo racistas por todas as partes |
Muitos recordarão o jogo de futebol da Champions League entre o PSG e um clube turco com um nome impronunciável que foi interrompido porque o árbitro teria feito um comentário racista. Se a minha memória não me trai, o que sucedeu foi que um jogador do banco turco teve um comportamento passível de expulsão e o quarto árbitro chama o árbitro principal para lhe mostrar o cartão vermelho. Quando o árbitro pergunta ao colega qual foi o jogador, este responde: “O negro”.
Na altura fiz o seguinte comentário:
“Por algum motivo que ninguém conhece, aquando das migrações eslavas há cerca de 1500 anos, numa região, que nem era exactamente parte do Império Romano, não deixou de se falar o latim vulgar. Com o passar do tempo esse latim foi derivando em vários dialectos enquanto ao redor se desenvolviam essencialmente línguas eslavas. O mais curioso foi o facto de, apesar de os vizinhos lhes darem vários nomes consoante as tribos (valáquios, moldavos, etc.), os locais chamavam e consideravam-se a si próprios romanos. E foi assim que, contra todos os prognósticos, surgiu um enclave românico no meio de um oceano linguístico eslavo. Uma língua mais próxima da que se fala na longínqua cidade de Paris, que em Sófia, Kiev, Praga, Belgrado ou Varsóvia.
E foi por isso que um senhor nascido nos Camarões, na África Equatorial, num país colonizado por França, conseguiu perceber que um senhor dos Cárpatos era racista, porque percebeu a palavra “negru” enquanto os vizinhos deste, mais ou menos racistas, teriam dito “chernyy”, “czarny”, “cerná”, “cheren”, “crna”, “crn” ou qualquer coisa do género e o maior ou menor grau de racismo de tais indivíduos ficaria para sempre oculto na ininteligibilidade do idioma. Mas, de repente, ouve-se a palavra “negru” e, como que por milagre, todas as diferenças culturais, de pensamento, de identidade, de temperamento que distam de Paris a Bucareste se esfumam, como se a capital da Roménia ficasse em Neully-sur-Seine e não muito para lá de Munique, Praga ou Budapeste.”
Como depois foi óbvio para quase toda a gente, tudo o que aconteceu foi que um senhor estava a ser acusado de defender uma ideologia, outrora muito progressista e até científica, mas felizmente caída em desgraça, simplesmente por ser mal-interpretado. A consequência a longo prazo foi que a UEFA decidiu pôr em marcha um protocolo para evitar algo que não tinha sucedido. Mas, menos mediático, foi o facto de ter reconhecido a importância dessas diferenças. O árbitro em questão foi obviamente ilibado da acusação, mas foi obrigado a fazer um curso de “reeducação” para evitar novos mal-entendidos. Duvido que o nome do curso seja esse, mas a ideia tem esse cheiro maoísta, ensinar pessoas que não cometeram nenhum crime a pensar bem.
Infelizmente estes cursos são cada vez mais necessários, porque as organizações querem evitar problemas legais. Conheço um caso: uma empresa espanhola adquiriu uma empresa do mesmo sector no Reino Unido. Mandou uma equipa de directores e gestores para dirigir a subsidiária britânica e os processos de assédio sexual começaram a chover. Teriam os espanhóis, os maus das fitas do período clássico de Hollywood, começado a vingar afrontas passadas? A repor os abusos infligidos por Errol Flynn à sua Armada Invencível? A dedicar-se à pilhagem e à violação em terras da Velha Albion? Aparentemente não. Estes senhores comportavam-se da mesma forma que tinham feito durante anos em Madrid sem que a capital espanhola tenha alguma vez sucumbido ao Estupro de Nanquim. O problema foram essencialmente piropos. Observações mais ou menos galantes que, no Reino Unido, dão direito a uma denúncia criminal. Quando as indemnizações começaram a fazer mossa na conta de resultados, e antes que a má-fama o começasse a fazer na reputação, a empresa percebeu que era mais barato e eficaz fazer os seus directores passar por cursos de reeducação que continuar a suportar a sangria.
Desde que a Inglaterra aderiu à Reforma, porque o seu mui católico rei queria um sucessor varão (sem saber que, afinal, bastava que o herdeiro escolhesse o pronome adequado), o Puritanismo passou a ser uma força a ter em conta naquele país. Para alguns puritanos, a Inglaterra protestante não o era em dose suficiente, pelo que se meteram em barcos e foram construir o seu paraíso na terra do outro lado do Atlântico. Deste modo, as duas principais nações com descendência anglo-saxónica sempre estiveram bem-dotadas de um puritanismo exigente do ponto de vista do comportamento exterior dos próprios e de terceiros, ao mesmo tempo que os governantes tiveram que ir navegando uma tolerância que permitisse que as várias seitas ou denominações não se matassem entre si. Isto enquanto mandavam alegremente bruxas à fogueira e católicos ao patíbulo. Para não me desviar muito, apenas acrescento que nem........