O desafio dos biorresíduos no Planalto Beirão |
Há temas em que o tempo não joga a nosso favor, a gestão de biorresíduos é um deles. Num contexto de crescentes exigências ambientais e legais, o maior risco que enfrentamos na próxima etapa não é falta de tecnologia, nem falta de conhecimento, mas sim, adiar decisões e continuar a tratar biorresíduos como indiferenciados, perdendo valor onde poderíamos ganhar eficiência, qualidade ambiental e capacidade de resposta às metas. Este desafio pode, e deve, ser uma oportunidade para a Região do Planalto Beirão.
Neste momento sabemos o que está em causa, no sistema intermunicipal da região, estima-se uma produção anual de cerca de 50 mil toneladas de biorresíduos, com 77% de origem doméstica. E sabemos também que, em termos de quantidade gerada por “utilizador”, a diferença é enorme, os domésticos representam cerca de 0,13 t/hab/ano, enquanto os não domésticos podem chegar a 2,9 t/utilizador/ano. Estes números, por si só, dizem muito sobre o caminho a seguir.
Neste contexto vale a pena contrariar uma intuição comum: se a maioria dos biorresíduos vem das habitações, parece óbvio começar sempre pelo doméstico. Mas quando falamos de execução, de logística e de resultados rápidos, a captação eficaz tende a começar onde a escala é maior por ponto de recolha, nos grandes produtores não domésticos. Não porque o doméstico não seja essencial (que o é), mas porque há uma forma inteligente de acelerar a mudança: garantir impacto, reduzir contaminação e estabilizar operação, e depois expandir com maior segurança.
No interior, esta racionalidade é ainda mais relevante. O território coloca desafios específicos como a baixa densidade populacional, dispersão, e a necessidade constante de equilibrar custos operacionais com ambição ambiental. A recolha e o tratamento de biorresíduos não podem ser uma “cópia” de modelos urbanos, estes têm de ser desenhados à medida, com soluções combinadas e metas realistas.
Desde 2019, a AMRPB definiu a sua estratégia, objetivos e investimentos para captar o potencial de valorização de biorresíduos, alinhando-se com as obrigações da Diretiva-Quadro Resíduos e com o novo Regime Geral de Gestão de Resíduos. No plano de infraestruturas, a região passou a dispor de um Tratamento Mecânico e Biológico (TMB) e de um Centro de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos (CTRSU) que asseguram capacidade para a fração orgânica proveniente do indiferenciado, bem como de um Parque de Compostagem que reforça a resposta para a fração orgânica recolhida seletivamente. A infraestrutura, porém, é só metade da equação. A outra metade é decisão: desenho do sistema, o envolvimento dos utilizadores, a definição de prioridades e a qualidade da separação na origem.
A estratégia da AMRPB assenta necessariamente numa abordagem diferenciada, adaptada às especificidades territoriais, ao perfil dos utilizadores e ao modelo logístico de transporte de resíduos urbanos num território de baixa desnsidade populacional. Sob o lema “Sou resto, mas ainda presto”, 2026 marca uma nova fase na implementação da recolha seletiva de biorresíduos, combinando circuitos porta-a-porta, com especial enfoque nos utilizadores não domésticos, e, progressivamente, soluções de contentorização na via pública, sobretudo em áreas urbanas, onde se equilibrem custos operacionais e ambição nas taxas de captura.
A reciclagem na origem, dirigida exclusivamente aos utilizadores domésticos, aposta na compostagem doméstica e comunitária, particularmente em zonas rurais e periurbanas, onde as características das habitações favorecem a instalação de unidades individuais ou coletivas. A entrega de resíduos verdes na rede de Ecocentros da AMRPB complementa este modelo, reforçando a resposta para materiais que, pela sua natureza, exigem soluções específicas.
E vale a pena dizê-lo com clareza: separar biorresíduos não é apenas “mais uma recolha”. É uma escolha de gestão que reduz pressão sobre o indiferenciado e transforma um custo num recurso.
O objetivo é claro: até 2030, assegurar uma cobertura satisfatória da recolha seletiva porta-a-porta de biorresíduos alimentares, tanto para utilizadores domésticos como não domésticos, em linha com as particularidades de cada município e com a ambição ambiental que norteia a região.
No Planalto Beirão, os biorresíduos deixam de ser apenas um problema a resolver. Tornam-se parte da solução, transformados em composto, energia e valor para o território.
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