Entre Babel e Jerusalém: o Papa, a IA e o futuro do Homem

Passei parte da manhã de segunda-feira a ler a nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, assinada a 15 de maio e apresentada publicamente a 25 de maio. É a sua primeira encíclica, e o seu primeiro grande texto social, o documento com que entra a sério na conversa pública sobre inteligência artificial. Tem 245 parágrafos densos, por vezes quase jurídicos, por vezes inesperadamente líricos.

Não escrevo isto como católico praticante nem como teólogo. Escrevo como jurista que passa os dias a desenhar contratos e frameworks de governance para sistemas de IA. E digo, sem ironia, que vale a pena ler, mesmo para quem nunca pôs os pés numa igreja.

A primeira coisa que surpreende é o tom. Leão XIV não condena a tecnologia, não a demoniza, não cede à tentação fácil de pintar a IA como a nova torre de Babel a derrubar. Pelo contrário, escolhe precisamente essa imagem bíblica, a torre de Babel, e contrapõe-lhe outra, menos conhecida fora dos círculos teológicos: a reconstrução das muralhas de Jerusalém narrada no livro de Neemias.

Babel é a construção comum dominada pela ambição de poder e por uma uniformidade que esmaga a diferença. Jerusalém é a reconstrução paciente, partilhada, em que cada família recebe um pedaço de muralha para refazer. A pergunta que o Papa nos deixa é simples e desconfortável: em qual destas duas obras estamos hoje a trabalhar?

É uma pergunta que merece resposta de quem desenha políticas públicas e de quem assina cheques em conselhos de administração, mas também de quem ainda não percebeu bem o que muda quando o filho de oito anos passa a conversar com um chatbot antes de adormecer. Ou seja, todos nós.

Há três pontos em que considero que Leão XIV vê com particular clareza, e nos quais um leitor atento ganha em deter-se.

O primeiro é uma constatação técnica que poucos documentos públicos têm coragem de fazer. O Papa escreve que as inteligências artificiais modernas são “mais cultivadas do que construídas”. Os programadores não desenham diretamente todos os detalhes do sistema, criam uma arquitetura sobre a qual o modelo cresce. O resultado é que ninguém, nem sequer quem os concebe, compreende inteiramente como funcionam por dentro.

Pode soar a formulação de teólogo a tentar parecer atualizado, mas é literalmente verdade. Boa parte do que sai dos grandes modelos de linguagem é, do ponto de vista do seu........

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