Um país pobre, perfeitamente explicado
Acontece sempre, com a fiabilidade de uma lei natural. Publico um artigo sobre o crescimento económico português — os números, a divergência, os salários — e, em poucas horas, chegam os explicadores. Não para contestar os valores; os valores não são contestáveis. Chegam para os justificar. A ditadura deixou-nos analfabetos. Somos periféricos. Somos pequenos. O euro foi desenhado para a Alemanha. A austeridade sangrou-nos. Foi o neoliberalismo. Cada comentário é oferecido como defesa, e todos são proferidos no mesmo tom — não de revolta com o resultado, mas de satisfação por o terem explicado. É esse tom o assunto deste artigo, porque levei anos a identificar o que me perturba nele.
Não é a fraqueza das desculpas, embora sejam fracas. É a resignação. Eis um país que é pobre ao fim de cinquenta anos de democracia — pobre ao ponto de os seus jovens emigrarem às centenas de milhares, pobre ao ponto de ter sido ultrapassado pela Roménia em rendimento por habitante — e o instinto de metade da sua intelligentsia, perante esse facto, não é a ambição: é a apologética. Não “isto é intolerável, o que mudamos?”, mas “eis por que razão não podia ter sido de outra maneira”. Um país pobre, perfeitamente explicado, é aparentemente um lugar aceitável para descansar. E quero ser preciso na acusação, porque explicar é o que fazem as pessoas sérias, e as explicações sérias são bem-vindas. A diferença entre uma explicação e uma desculpa é operacional: uma explicação acaba numa lista de tarefas; uma desculpa acaba com a conversa. Cinquenta anos destas explicações não produziram lista de tarefas nenhuma. Acho esta atitude, no sentido exato da palavra, inacreditável.
O catálogo das desculpas, auditado
Tomemos as desculpas por ordem, porque cada uma se dissolve ao contacto com as datas. A herança da ditadura: real, e irrelevante para a questão em causa. Portugal cresceu mais depressa do que quase toda a Europa entre 1960 e 1973 — cerca de 6,5 por cento ao ano — e voltou a convergir a toda a velocidade depois da adesão europeia, de 66 por cento da média comunitária em 1986 para 85 por cento em 2000, precisamente enquanto digeria os défices do salazarismo: os retornados, o analfabetismo adulto, tudo. A divergência começa depois de 2000 — um quarto de século depois da entrega, no momento exato em que a geração mais escolarizada da história portuguesa entrava no mercado de trabalho. Uma herança explica onde se começa. Não explica por que parámos.
A periferia: a Polónia estava exatamente à mesma distância do centro europeu em 1980, a estagnar sob o planeamento central, e em 2015, em pleno boom — a geografia nunca se moveu; o regime económico, sim. Os salários reais polacos subiram 108 por cento desde 1995, contra 21 por cento os nossos, e as linhas cruzaram-se em 2016. A Estónia nem sequer foi um país durante meio século; partiu em 1991 dos escombros soviéticos, mais longe do “centro” do que nós alguma vez estivemos, e as suas crianças lideram hoje a Europa no PISA enquanto o seu rendimento passa a correr pelo nosso. E, se a geografia mandasse, expliquem-me a Grécia: a mesma adesão, os mesmos fundos, mais sol — e uma........
