As crianças são estóicas (e nós desaprendemos)!

Há uma observação que qualquer pediatra faz milhares de vezes ao longo de uma carreira e que raramente formula em voz alta: as crianças são desproporcionadamente felizes. Não felizes apesar das circunstâncias — felizes dentro delas. Vejo-o todos os dias. A criança internada que transforma o suporte de soros num companheiro de corrida pelo corredor. A que recebe um “hoje não pode ser” com uma tempestade de trinta segundos e, logo a seguir, constrói um mundo inteiro com dois copos de plástico. Onde nós veríamos limitação, ela vê o material disponível para viver.

Ao fim de mais de 15 anos de pediatria, convenci-me de que isto não é apenas encantador. É filosoficamente sério. As crianças praticam, sem o saber, o núcleo duro do estoicismo. E nós, ao crescer, desaprendemo-lo. Epicteto, o escravo que se tornou filósofo, abre o seu manual com a distinção que sustenta todo o edifício estóico: há coisas que dependem de nós — os nossos juízos, os nossos desejos, as nossas reações — e coisas que não dependem — o corpo, a reputação, os acontecimentos. A infelicidade nasce de tratar as segundas como se fossem as primeiras.

A criança pequena vive esta distinção de forma quase perfeita. O mundo dos adultos apresenta-se-lhe como facto bruto: os pais decidem a hora de deitar, o que se come, quando se sai. Para ela, não são regras negociáveis — são a........

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