O coração fala ao coração

A recente proclamação de John Henry Newman como Doutor da Igreja, título concedido a apenas 38 santos num espaço de dois milénios, foi a formalização de um reconhecimento que, em larga medida, já era partilhado por um grande número de fiéis. Prolepticamente, arriscamos dizer que o mesmo sucederá com Joseph Ratzinger ou Bento XVI, o grande Papa-Teólogo.

Ao contrário de Bento XVI, o cardeal Newman permanece, no entanto, virtualmente desconhecido fora de círculos eminentemente teológicos. Mas poucos, se é que algum, foram tão relevantes para o pensamento católico nos últimos séculos. Num tempo em que o liberalismo começava a assentar arraiais e a dúvida filosófica era incensada na ara do “intelectualismo” respeitável, Newman, o grande apóstolo da inteligência dos tempos modernos, não debandou para a ala protestante e laicizante da Low Church anglicana, mas, depois de uma profunda e desassossegada peregrinação interior, entrou triunfantemente no grande salão da ortodoxia.

A conversão de Newman esteve, pois, longe de ser uma conversão damascena à São Paulo. Pelo contrário, a sua chegada à Igreja de Roma foi a efígie risonha de um processo de grande tormento interior, fruto de anos de dilacerante inquietação e custoso discernimento. No final, contudo, todas as estradas vão dar a Roma. E quem tem boca, como era o seu caso, inevitavelmente chegará lá, por mais dura que seja a peregrinação. Este árduo caminho está magistralmente descrito naquela que é a mais bela e influente autobiografia desde as Confissões de Santo Agostinho, a Apologia Pro Vita Sua. Repare-se que, naqueles tempos, um britânico que se convertesse à Igreja Católica ganhava uma espécie de marca de Caim ou miasma espiritual. Newman sabia-o. E assim foi. Nunca mais ensinou em Oxford e perdeu toda a sua reputação como luminária teológica. E, como também era uma espécie de desporto nacional malhar nos papistas, que eram vistos como quintas colunas e condenados a um exílio em terra própria, Newman foi acusado de ser um agente da Igreja de Roma deliberadamente plantado para periclitar a Igreja Anglicana a partir de dentro.

Em tempos onde as disputas teológicas não são propriamente hors d’oeuvres, é difícil compreender o evento sísmico que foi a conversão de Newman em plena era vitoriana. Facto é que, do final da década de 20 em diante, toda a gente conhecia o então teólogo anglicano e vigário da St. Mary’s University Church. A sua influência em Oxford, universidade que continua a ser o paradigma do brilhantismo académico inglês, era incontestável. E é por essa razão que o Oxford Movement, iniciado por Keble e depois encabeçado pelo próprio Newman, logrou granjear grande curiosidade e admiração. Pouco depois, já na década de 30, Newman alcançaria o estrelato com a publicação dos Tracts for the Times, para os quais foi o principal contribuidor e nos quais defendeu uma clara recatolização da Igreja Anglicana. Com a lucidez póstuma de quem se reconhece vencido pela evidência, o grande tratadista mais tarde reconheceria que, após a publicação do “tratado” 90, o último, “estava no (seu) leito de morte, no que tocava à pertença na Igreja Anglicana”. Era o farol de Roma que o chamava das entranhas do anglicanismo e do metódico estudo da História.

Do Desenvolvimento da Doutrina

Apesar da sua incontestável santidade e sabedoria, a verdade é que, hoje como então, Newman está longe de ser consensual. Mesmo quando Leão XIII o nomeou Cardeal, o seu mérito e ortodoxia não eram reconhecidos por muitos católicos. Até hoje, as reservas devem-se em grande parte a certas apropriações de ideias newmanianas por parte de quem apenas o tresleu. O seu seminal “Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã”, um dos livros........

© Observador