Liturgia negra: o duende lorquiano |
A melhor poesia é uma espécie de doença contagiosa. Como a lepra, atravessa as massas de sombras nocturnas para cravar-se na carne dos homens. Aparece sem pregões e instala-se nos sofás da eternidade sem pedir licença. Nunca pede desculpa nem procura condecorações. Ninguém sabe de onde ela vem, se de incursões galvânicas electrocutando as meninges, despejando fogo e enxofre pelo cérebro abaixo, se de um polipeiro de pesadelos nato e criado na espessura do sangue. Não tem prógonos, porque os trai. Não deixa epígonos, mas bastardos que se revoltam porque ousam superá-la ou, quando não o conseguem, admiradores emasculados.
Falo da melhor, da que perdura. Espécie de rocha ígnea lavrada pela violência. Pela demência. É uma escrita de quem morre sobre a pluma, de quem espreme a polpa de que é feito, de quem luta ferinamente contra o anjo negro da morte, de quem vomita a antiga e sempre nova angústia humana. É bílis transfigurada em beleza. Quem a lê, quem a lê verdadeiramente e não com olhos ramelosos, passa sempre por um estado febricitante de irrealidade, por uma vigília deliquescente em que se esvazia das suas faculdades intelectuais primárias. É esse o pacto fáustico entre grandes escritores e grandes leitores, firmado sob a violenta luz de um sorriso mefistofélico.
Tudo isto para falar de Lorca, o maior poeta espanhol........