O Lobo de Gúbio

Após a oração mariana do Ângelus do primeiro dia de novembro de 2024, Festa de Todos os Santos, o Papa Francisco pediu para que se rezasse por todos os povos que sofrem com as guerras.

“Irmãos e irmãs, a guerra é sempre uma derrota, sempre! E é ignóbil, porque é o triunfo da mentira, da falsidade: busca-se o maior interesse para si mesmo e o maior dano para o adversário, pisoteando vidas humanas, o meio ambiente, infraestruturas, tudo; e tudo disfarçado com mentiras. E os inocentes sofrem!”

No livro A Arte da Guerra, Nicolau Maquiavel apresenta, como sua tese central, a ideia de que o poder e a estabilidade de um Estado dependem diretamente da sua capacidade de manter uma força militar forte e bem organizada, sendo as armas próprias, isto é, as controladas diretamente pelo Estado e usadas por cidadãos, não apenas um instrumento de defesa, mas um meio para proteger e reforçar a ordem política, promovendo a liberdade e a autoridade do governante.

Infelizmente outros caminhos de uso das armas são trilhados (permanentemente!) na defesa aparente dos interesses mais diversos, por vezes parecendo meras expressões de dominação de índole material, mais ou menos encobertas, sejam elas de comunidades ou de indivíduos, fazendo da “guerra” uma quase constante.

1.Apresentação
A espécie humana, como parte do reino animal, carrega traços de agressividade que, em essência, traduzem uma base adaptativa, pois que terá estado na origem de comportamentos que foram cruciais para a sobrevivência em ambientes hostis, a defesa de recursos vitais e o estabelecimento de hierarquias sociais. Contudo, a agressividade humana transcendeu os limites biológicos e ganhou complexidade com o advento da consciência e da cultura, manifestando-se hoje em escalas que vão desde o indivíduo até aos conflitos globais, que poderão colocar em risco a continuidade da civilização ou mesmo da vida e não apenas em relação à espécie humana.

Jeremy Griffiths, em Freedom, explora a agressividade humana como expressão de um conflito profundo entre o instinto e a consciência. Ele sugere que, à medida que os humanos desenvolveram um senso moral, emergiu uma tensão entre os impulsos naturais e a busca por liberdade e sentido. Essa tensão, muitas vezes acompanhada de culpa existencial, resulta em comportamentos destrutivos que podem ser projetados em escalas maiores, como disputas a escala alargada ou guerras como, aliás, o mundo já sofreu e hoje se evidencia nas constantes ameaças latentes no nosso mundo contemporâneo. Disputas por recursos, poder político e ideologias muitas vezes resultam em escaladas de agressividade entre nações, mesmo numa era de diplomacia avançada. A dificuldade de encontrar caminhos de negociação ou mediação está, em parte, ligada à mesma condição humana descrita por Griffiths: o medo de ceder o controlo, a necessidade de preservar o ego coletivo e a incapacidade de transcender impulsos primitivos.

Do ponto de vista teológico, a Bíblia também oferece reflexões atemporais sobre a natureza destrutiva da agressividade humana. O relato de Caim e Abel [Génesis 4:1-16] exemplifica como as emoções humanas – o ciúme, o orgulho e a ira – podem conduzir à violência. O mito narra o primeiro assassinato e de grande violência, porque um fratricídio, a acentuar a tendência de autodestruição da humanidade, uma tentativa de explicar teologicamente como o mal estava já nas origens da humanidade. Note-se que Caim não é condenado à morte, como previa a Lei do Talião. Deus age como Pai e não apenas como juiz, salvando o culpado, pois a lei deve recuperar o culpado e não apenas condená-lo, o que se verifica, pois lhe é colocado um sinal que o diferencia dos outros homens, impedindo-o de esquecer ou ocultar o seu crime.

A análise conjunta das teses de Griffiths e Maquiavel revela um padrão estrutural que liga a natureza humana, a organização estatal e o desenvolvimento de armamentos. A agressividade intrínseca apontada por Griffiths, que evoluiu de uma característica........

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