“Desafio do paracetamol”: quando likes podem custar a vida |
A Ordem dos Médicos, a Ordem dos Farmacêuticos e o Ministério da Saúde emitiram recentemente alertas públicos sobre os riscos associados ao designado “desafio do paracetamol”, que tem circulado nas redes sociais — sobretudo no TikTok — em vários países europeus. Este desafio é uma espécie de competição entre jovens, na qual é incentivada a toma deliberada de doses elevadas deste fármaco para ver quem é mais resistente ou aguenta mais tempo antes de ser hospitalizado.
O paracetamol é um fármaco eficaz e seguro quando usado corretamente, mas a utilização de doses excessivas pode provocar lesão hepática grave, por vezes irreversível, exigindo habitualmente internamento hospitalar urgente.
Importa referir que, nas primeiras horas, podem não surgir sintomas relevantes, criando uma falsa sensação de segurança. A aparente normalidade, após a ingestão excessiva do paracetamol pode atrasar a ida ao hospital, comprometendo a eficácia do tratamento. Porém, com o tempo, surge habitualmente uma cascata de complicações graves. A progressão do quadro clínico leva a insuficiência hepática aguda, alterações críticas da coagulação, hipoglicemia, encefalopatia, lesão renal aguda, podendo obrigar a transplante hepático e, nos casos mais graves, pode causar a morte.
Os desafios virais perigosos têm-se tornado um fenómeno preocupante nas redes sociais, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Estes desafios, muitas vezes partilhados em plataformas como TikTok, YouTube, Instagram e Facebook, incentivam comportamentos de risco com o objetivo de obter popularidade, aceitação social ou simplesmente visualizações. Embora alguns destes desafios possam parecer inofensivos, com frequência têm consequências graves, incluindo lesões físicas, internamentos hospitalares e até mortes. Apresento de seguida dois exemplos.
O “Desafio do Detergente” (Tide Pod Challenge), em 2018, levou jovens a colocar cápsulas de detergente na boca e a mastigá-las. Estas cápsulas (pods), especialmente as da marca Tide, são coloridas e atraentes, mas contêm detergentes altamente concentrados e tóxicos, podendo causar desde queimaduras cáusticas na boca, esófago, estômago e vias respiratórias, a intoxicações graves com vários sintomas gastrointestinais, alterações neurológicas e cardíacas, podendo evoluir para edema pulmonar agudo e insuficiência renal aguda. Nos casos mais graves, a ingestão destas cápsulas pode provocar a morte.
Mais recentemente, em 2020, o “Desafio do Benadryl” (Benadryl Challenge) foi popularizado nos EUA através do TikTok. Este consistia na ingestão de doses elevadas do anti-histamínico Benadryl® (difenidramina) para induzir alucinações. Após a toma do fármaco em doses tóxicas, o adolescente ou jovem gravava um vídeo onde relatava a experiência alucinatória decorrente do efeito da substância e publicava o conteúdo nas redes sociais. Este desafio resultou em vários internamentos hospitalares e na morte de pelo menos uma adolescente.
Estes exemplos, bem documentados na literatura médica, mostram como os desafios virais podem ultrapassar rapidamente as fronteiras do entretenimento, transformando-se em ameaças concretas à saúde e à vida dos jovens. A disseminação destes conteúdos nas redes sociais, combinada com a pressão dos pares e a busca por notoriedade, cria um ambiente propício à adoção e repetição de comportamentos de risco, com consequências graves ou mesmo fatais.
Apesar dos aspetos positivos, a utilização das redes sociais não é isenta de riscos. As crianças e adolescentes constituem uma população particularmente vulnerável, dada a sua menor maturidade emocional, cognitiva e pela pressão do grupo. O tipo de conteúdo visualizado pode exercer uma influência poderosa e perigosa, tornando-se um problema sério de saúde pública que o Estado não pode ignorar.
O aumento da literacia digital é um dever coletivo, pois as redes sociais vieram para ficar. Devemos reconhecer que o ambiente digital está longe de ser neutro e que as redes sociais não podem ser vistas apenas como espaço de socialização ou informação. A necessidade de uma regulação ética robusta é urgente, para proteger os utilizadores, garantindo que o desenvolvimento tecnológico respeita princípios de justiça, pluralismo e proteção dos direitos das crianças e adolescentes.
É necessário implementar políticas públicas que promovam a corresponsabilização das plataformas, sem abdicar de um diálogo aberto com os jovens, de forma a equilibrar a sua proteção com a liberdade de expressão. A liberdade não é fazer tudo para conquistar likes nas redes sociais; é saber dizer não e preservar a vida.
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