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Uma história de hipocrisia /premium

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15.08.2019

A actual greve dos camionistas coloca pelo menos uma questão interessante: até onde é que se pode lixar democraticamente a vida dos outros? E, ao mesmo tempo, oferece-lhe uma resposta provisória: até esse direito entrar em conflito com os interesses do poder, que podem, ou não, coincidir com os interesses da maioria das pessoas. Se as greves não afectarem o poder e aqueles que directa ou indirectamente o detêm, então, como todos sabemos, constituem um direito indisputável, inteiro e universal, por mais danos que provoquem à vida de um número muito substancial de indivíduos. Se afectarem o poder, adquirem magicamente uma legitimidade apenas relativa e pronta a ser condicionada ao gosto desse mesmo poder.

Ora, a presente greve corre sem dúvida o risco de perturbar gravemente a vida de praticamente a população inteira. Mas, além disso, afectaria estrondosamente, caso fosse bem sucedida, o poder, já que o seu sucesso seria inequivocamente visto como uma perda de autoridade sem conserto possível. É claro que qualquer primeiro-ministro não aceitaria esse risco e teria de reagir energicamente. Mas António Costa não é um primeiro-ministro qualquer. Precisa, quanto mais não seja por causa da dúbia origem do seu poder, da sua “solução governativa”, de afirmar constantemente a sua autoridade. Daí ter visto a célebre “janela de oportunidades” que, antes das eleições, esta greve lhe colocava à frente para formar bem na cabeça dos portugueses a imagem dessa tal autoridade, muito apreciada entre nós, embora não sob todas as formas. E daí também ter encenado um espectáculo sem par. Como se um golpe militar com origem em Aveiras de Cima, comandado por um raivoso general, émulo de Pinochet, Pardal Henriques, procurasse subverter a........

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