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Os fanáticos do apocalipse e outras histórias /premium

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21.03.2019

Pus-me a fazer uma pequena lista da coisas que mais me chamaram a atenção nestes últimos dias. É um velha e pueril expectativa que de vez em quando vem à tona: esperar que da conjunção mais ou menos arbitrária de acontecimentos surja alguma iluminação, para uso pessoal, sobre os tempos que vivemos. Infalivelmente, a expectativa não é satisfeita – e desta vez não houve excepção. Só há uma saída airosa neste tipo de situações: aceitar que o mundo é um lugar que se assemelha a uma manta de retalhos de cores, feitios e tamanhos diversos, cosidos com fio grosso muito visível. Aqui ficam alguns retalhos, com a vaga sugestão de uma ordem.

A desigualdade. Os argelinos recusam-se a ter como presidente alguém, Abdelaziz Bouteflika, que não fala em público há já cinco anos. Os portugueses às vezes fartam-se de um presidente que fala em público de cinco em cinco minutos. Conclusão: os povos são abençoados com políticos de natureza muito diferente uns dos outros. A questão é de saber se beneficiariam efectivamente com uma mudança radical de dieta. Nalguns casos, talvez. Tomemos o exemplo dos vigaristas. Nalguns países eles são particularmente mal vistos, noutros nem assim tanto. Em Portugal, por exemplo, algumas classes de vigaristas notórios são vistas, vá-se lá saber porquê, com olhos muito compreensivos pelo poder e adjacências senatoriais e culturais. Talvez, de facto, vivessemos melhor sem certas ternuras inimagináveis noutros lugares.

A história da violência. Os “coletes amarelos” lá continuam a deixar atrás de si aos sábados um fio de destruição. Cerca de sete anos a viver em Paris chegaram e sobraram para não me surpreender com estas coisas. Um bom número de franceses, talvez por viver ainda no interior do mito da Revolução, adora a violência, sobretudo se ela implicar o confronto com a polícia – e o resto........

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