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O desprezo pela plebe /premium

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28.02.2019

Face ao ditador Maduro, que empreendeu uma guerra contra o seu próprio povo, obrigando quase três milhões e meio de venezuelanos a abandonarem o país nos últimos anos, gente simpática como Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, Francisco Louçã ou Joana Mortágua é tomada por um horror sagrado face ao imperialismo americano. Trump arranjará maneira, por um método qualquer, de pôr a mão na Venezuela e de impor um seu fantoche, tendencialmente sanguinário. Nada de surpreendente, é claro. Os velhos ódios, como os velhos amores, morrem dificilmente. Mas o facto de não ser surpreendente, muito exactamente, convida a alguma reflexão.

A facilidade em saltar para os hipotéticos males futuros, desvalorizando alegremente os reais males presentes, é ajudada por duas características salientes: a incapacidade de olhar os factos com um mínimo de despreendimento relativamente a um quadro teórico geral no qual cresceram e de que nunca se afastaram por um milímetro – e um profundo desprezo pela plebe. Estas duas características encontram-se, de resto, ligadas uma à outra.

Convém não esquecer que uma boa parte da esquerda (incluindo uma grossa fatia do PS) vive no interior de um mito. O mito generosamente garante sentido a tudo. Ou melhor, garante o sentido todo àquilo que permite pensar e, simultaneamente, cria uma fronteira intransponível entre o sentido e o sem-sentido, que pertence às trevas exteriores. O que é que o mito, genericamente, diz? Diz que há uma direcção bem determinada da história, na qual, sabendo-o ou não, caminhamos,........

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