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No mundo ideal não é preciso olhar para o empírico /premium

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06.06.2019

Há uma maneira certa e segura para não resolver qualquer espécie de problema que se nos coloque: sermos incapazes de fixar a atenção nos casos particulares e concretos e logo voar para o reino do universal e abstracto, lidando com o particular e concreto apenas na medida em que ele encaixa no geral e abstracto tal como o entendemos e descurando tudo o resto.

Já dei há uns tempos este exemplo, que me diz pessoalmente respeito porque cheguei à idade em que as maleitas mais ou menos insidiosas nos atacam, capazes de nos levar desta para melhor. O Serviço Nacional de Saúde está caótico, é mal financiado, os tratamentos atrasam-se, médicos, enfermeiros e doentes (os célebres “utentes”) protestam, directores de serviço demitem-se um pouco por todo o lado. O que se faz? Procura o Estado resolver os problemas concretos? Não, é claro que não, era o que faltava. Passa-se de imediato para o universal, para o geral e abstracto, para o reino dos princípios eternos: discute-se uma nova Lei de Base da Saúde. Como a logomaquia, a luta das palavras, tende a perpetuar-se indefinidamente, uma espessa corrente de fumo é lançada sobre o sofrimento e a angústia dos cidadãos inermes e poupa-se a chatice de resolver os problemas de que padece a ralé.

O salto para os princípios universais sem atenção prévia aos casos particulares (ou com voluntário e consciente silenciamento deles) é o último refúgio dos imbecis e o ambiente ideal para os fanáticos. Libertos das desconfortáveis amarras do empírico, os indivíduos entram no belo mundo das Ideias. Aí, a facilidade de acreditar não encontra qualquer resistência do real e o pensamento a crédito floresce ainda mais do que no curso comum dos negócios humanos, onde, de resto, já é o pão nosso........

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