Teodora e as borboletas do Verbo
Antes de o ouro a fixar na eternidade imóvel dos mosaicos de Ravena, antes de o seu rosto se tornar superfície de contemplação e distância, Teodora pertenceu inteiramente ao domínio do corpo – não como templo, mas como território disputado, atravessado, gasto até ao limite da sua própria significação. E, no entanto, é nesse mesmo corpo, exposto e partilhado até à exaustão, que começa a desenhar-se uma forma paradoxal de comunhão, uma espécie de liturgia obscura onde a impureza não anula, mas revela. Porque há uma pureza que não se guarda, que não se preserva na distância ou no intacto, mas que se consome no toque, que se multiplica no excesso, que se fragmenta para, nesse gesto, tocar o que em si mesma desconhecia.
No hipódromo, onde os corpos se ofereciam como moeda e se dissipavam na repetição anónima do desejo, o amor surgia desfigurado, reduzido à sua expressão mais elementar – e, ainda assim, nessa sucessão de encontros sem nome, permanecia uma espécie de memória invertida da comunhão: como se cada gesto, por mais vil e degradado, carregasse vestígios de um vínculo primeiro, de uma unidade perdida que insistia em regressar sob a forma de desejo. É assim que, tantas vezes no interior daquilo que parece apenas queda e dispersão, começa a insinuar-se uma outra leitura da redenção: não como negação da carne, mas como a sua travessia integral, como a possibilidade de que o próprio corpo – mesmo ferido, mesmo dividido – se torne lugar de passagem para algo que o excede e o reúne.
Teodora conheceu bem de perto o álacre odor dos leões e o relincho espumoso dos cavalos; ouviu os gritos dos estropiados e dos feridos e os falsos gemidos das prostitutas que, como ela e as suas irmãs, se ofereciam por um........
