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Safo e o princípio da incerteza

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01.02.2026

A história do conhecimento é, paradoxalmente, a história das suas perdas. Aquilo que hoje tomamos como herança – teorias científicas, práticas técnicas, sistemas simbólicos ou expressões artísticas – chegou-nos quase sempre de forma lacunar, mediado pelo acaso, pela destruição ou pela selecção arbitrária daquilo que alguém, em algum momento, decidiu preservar: temos conhecimento de civilizações antigas que dominavam técnicas de engenharia hidráulica cuja lógica precisa se perdeu; de tratados científicos que sobreviveram apenas através de citações hostis ou resumos imperfeitos; de mapas do mundo que foram redesenhados durante séculos a partir de hipóteses erradas, aceites por falta de alternativas. O conhecimento, longe de ser um edifício sólido e contínuo, revela-se mais como um mosaico de fragmentos, reconstruído a partir de restos.

É neste horizonte de precariedade que se inscreve a transmissão da poesia de Safo. O que dela nos chega – não um corpusíntegro, mas vestígios dispersos, preservados por motivos muitas vezes alheios ao valor poético – não é uma excepção trágica, mas um paradigma. Tal como acontece com certas teorias científicas antigas conhecidas apenas por refutações posteriores, ou com práticas médicas reconstruídas a partir de instrumentos sem manuais, a voz de Safo ecoa através ruínas textuais. A sua obra recorda-nos que aquilo que julgamos conhecer do passado é, frequentemente, apenas o que sobreviveu por acidente – e que a nossa relação com o saber é sempre, inevitavelmente, uma relação com a incompletude.

De acordo com um fragmento de uma elegia de um tal Fânocles, depois de Orfeu ter sido devorado pelas mulheres da Trácia, a sua cabeça e a sua lira – o instrumento do qual o lirismo recebeu o nome – foram levadas pelas ondas até Lesbos, onde foram posteriormente enterradas. Esta geografia não era casual. Na época em que Fânocles escreveu, no final dos anos 300 a.C. (a época de Alexandre Magno), há já muito que Lesbos estava associada a realizações líricas absolutamente excepcionais. A reputação de Terpandro, por exemplo, originário da cidade lésbica de Antissa e cujo nome surge num monumento como vencedor de um concurso........

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