Sófocles, sardinhas e o elogio do cepticismo
A tragédia mostra o que é perecível, o que é frágil e o que em nós é lento. Num mundo esmagado pela velocidade implacável e pela aceleração incessante de um constante fluxo de informação que cultiva a amnésia e uma infinita sede de futuro – supostamente garantido pelo culto aos novos deuses protéticos da tecnologia – a tragédia é uma espécie de travão de emergência.
A tragédia abranda as coisas ao confrontar-nos com aquilo que não sabemos acerca de nós: uma força desconhecida que diariamente abate sobre nós os seus efeitos mais violentos. Tal é a presença, por vezes aterradora, do passado que podemos tentar negar, mas que no fim reclamará a sua vitória, nem que seja sob a forma da nossa mortalidade. Podemos pensar que nos livrámos do passado, mas o passado não se livra de nós. Por entre as súbitas reviravoltas da Fortuna e do reconhecimento furioso da verdade sobre as nossas origens, a tragédia permite-nos ficar face a face com o que não sabemos sobre nós e que, justamente por isso, é precisamente o que faz com que este eu seja aquilo que é. A tragédia agita aquilo que nos prende, as armadilhas e os obstáculos do passado em que cegamente tropeçamos no nosso implacável, embora hesitante, movimento para a frente. É aquilo que os antigos chamavam “destino”, e que, para se abater sobre nós, cinicamente exige a nossa cumplicidade.
O fruto da reflexão sobre a tragédia não é, contudo, como pensava Schopenhauer, uma sensação de desespero ou de resignação moral, mas um sentido mais profundo do eu na sua absoluta dependência dos outros. É a velha questão da exposição vulnerável do eu a laços de parentesco aparentemente familiares (embora por vezes se descubra que, tal como Édipo, não se sabe quem são os pais, e que mesmo sabendo quem eles são, jamais saberemos quem eles são).
Uma das características mais marcantes, mas enigmáticas, da tragédia grega é a sua constante negociação com o outro, sobretudo o outro-inimigo, o........
