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O silêncio de Eurídice e o espaço que ficou

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23.05.2026

O verbo latino tacere significava calar, mas também abster-se de revelar, guardar consigo. Há silêncios que são desistência, rendição perante a impossibilidade de articular o mundo; mas há outros que funcionam como recinto de preservação, potinhos onde se depositam experiências demasiado densas para caberem na sintaxe do discurso. Não é que não houvesse nada a dizer; é que dizer significaria dispersar, fragmentar, trair a inteireza do que aconteceu. A palavra, por mais precisa que seja, opera sempre por recorte: isola, privilegia uma dimensão, reduz a complexidade vivida a uma sequência linear de signos. O que foi experienciado como totalidade – um instante onde todos os sentidos conspiravam numa mesma revelação – dissolve-se quando submetido à gramática, que exige sucessão, hierarquia, subordinação. E assim, o espaço torna-se repositório: nele fica tudo, precisamente porque nada foi dito. Não por incapacidade expressiva, mas por lucidez. Calar não é fracasso da linguagem, mas gesto de fidelidade ao real.

Essa fidelidade implica reconhecer que certas experiências habitam um regime de presença que antecede – ou excede – a mediação simbólica. Não são incomunicáveis por natureza, mas tornam-se vulneráveis à comunicação. Ao serem traduzidas, perdem a sua textura, a sua opacidade constitutiva, aquilo que nelas resiste à transparência do sentido. Porque o discurso, mesmo o mais cuidado, tende sempre para a clarificação, para a domesticação do ambíguo, transformando o vivido em compreensível, o denso em partilhável. E nesse movimento – necessário, inevitável – algo de essencial se perde. O silêncio que guarda não é, pois, mera ausência de palavras, mas recusa de uma traição: a traição daquilo que só existe enquanto permanecer intocado pelo nome.

O que ficou? Uma conversa interrompida num café, quando o olhar do outro se desviou e já nada mais voltou ao seu lugar. Uma tarde inteira de verão cujo calor e cujo cheiro nunca mais se repetiram, mas permanecem como prova de que, por um momento, o mundo foi perfeito. Uma mágoa antiga, que nunca chegou a ser formulada, mas que se instalou nas costelas como uma respiração desigual. O espaço onde ficou tudo é feito dessas presenças mudas, desses vestígios que resistem à erosão do tempo não por serem monumentais, mas por nunca terem sido traduzidos em narrativa.

Ficam os gestos que não encontraram........

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