Do ofício de ser livre |
Tal como nós e as nossas esperanças, os livros são frágeis. Percorrendo as grandes catástrofes da história, o mais natural e expectável teria sido que o saber contido nos livros tivesse desaparecido, às mãos de guerras, epidemias e saques. E, no entanto, ao longo do tempo, um silencioso arroio de bravos homens e mulheres salvou-os, vezes sem conta, da destruição mais que certa. De uma forma misteriosa e espontânea, a necessidade de ler forjou uma lealdade discreta entre pessoas que, sem se conhecerem, empenharam os seus esforços em preservar o caudal dos nossos melhores relatos, sonhos e pensamentos. Pessoas unidas por um desejo de proteger os livros. E, perante os profetas da extinção, nós sabemos que este antigo amor anónimo continuará a salvá-los
Etimologicamente, o livro descende do substantivo latino liber, nome pelo qual era conhecida aquela finíssima membrana entre a madeira e a casca de uma árvore, sobre a qual se escrevia antes da descoberta do papiro. Mas muito mais eloquente é o facto de esse termo ser homógrafo do adjectivo liber, (livre) – do qual se distingue apenas pela duração da vogal i, breve no primeiro caso e longa no segundo – e também parónimo de um substantivo que se usava apenas no plural, liberi (filhos).
“Se o trabalho for feito com amor – lembravam-se de ter dito São Patrício aos seus discípulos – até as pedras sorriem.” Nunca um mosteiro havia sido construído tão em cima do mar, na abrupta costa da Irlanda, erguido com pedras arrancadas às colinas vizinhas, fizesse bom ou mau tempo, sob céus em que também as gaivotas pareciam falar da alegria das nuvens. Recolhido sobre si mesmo, demasiado pequeno para albergar mais de uma dúzia de monges, o mosteiro tinha uma biblioteca que dava para as espumas enfurecidas, na qual nunca havia um silêncio........