Charlot, S. João da Cruz e a dança das cabras
Duas raparigas andam pela rua, veem uma vala e não conseguem deixar de saltar sobre ela enquanto riem. É tudo muito rápido – a corrida, o salto e o surgimento do vagabundo, que trabalha no fundo da vala e que aquele súbito alvoroço desperta. A cena faz parte de uma das primeiras curtas de Charles Chaplin e encerra todas as chaves do seu cinema, que não existiria sem aquele sentimento de adoração pelas raparigas. Limelight é frequentemente considerado o seu canto do cisne, pela simples razão de o vagabundo ter envelhecido e ter de se despedir delas.
“Um cavaleiro à procura de romance”, assim definia Chaplin o seu vagabundo. E, de facto, Charlot comporta-se sempre como um cavaleiro, sobretudo se houver saias por perto. O seu cinema está cheio de raparigas em apuros, que ele solicitamente ajuda. Em City Lights, é uma cega, em Modern Times, uma mendiga ladra, em The Gold Rush, uma emigrante, em Limelight, uma bailarina cuja estranha doença a impede de mexer as pernas. De todas cuida, a todas serve como o mais solícito dos cavaleiros. E de todas, como não podia deixar de ser, se enamora com toda a seriedade.
Por isso nos faz rir, porque o amor nos coloca no gume das coisas. Era assim, aliás, que Lorca definia o poético: “aquilo que está no limite, prestes a cair no lugar de onde não se regressa”. Charlot encontra-se sempre nesse ponto. É como aquelas cabras que se passeiam com toda a naturalidade à beira de escarpas, e que admiramos com um misto de medo e alegria: medo, porque, num descuido, podem cair a qualquer momento; júbilo, porque são capazes de sobreviver onde a vida não parece possível.
Charlot está sempre entre essas cabras, por isso é o mais gracioso e poético de todos os cómicos que já apareceram no cinema. Apenas Buster Keaton se poderá comparar-lhe e, talvez, Stan Lauren. Os Irmãos Marx, de forma alguma: são como cartoons – imortais, indestrutíveis. Não sentimos medo por eles, e isso tira-lhes a poesia,........
