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Burros de chumbo e os trocos de Carson McCullers

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11.01.2026

Quando Carson McCullers acabou de escrever Frankie e o Casamento, não completara ainda trinta anos: à semelhança de um herói trágico antes da queda, era jovem embora tocada já por uma melancolia antiga. O livro anterior, Reflexos num Olho Dourado, nascera com a rapidez dos sonhos febris e fora acolhido como um presságio cumprido. Em poucos meses, a escrita abrira-se como uma ferida luminosa: a crítica saudara nela uma voz rara; os amigos reconheceram-lhe uma solidão soberana; Tennessee Williams, que conhecia como ninguém a precariedade dos corpos e das almas, chamou-lhe a maior romancista americana viva, e Edith Sitwell escreveu que a sua obra parecia já um legado, como se tivesse sido deixada por alguém que atravessara o tempo.

Mas Frankie e o Casamento não se deixou escrever assim. Chegou como chegam as coisas essenciais: lentamente, com dor. Menos de duzentas páginas exigiram cinco anos – cinco anos atravessados pela doença, pelo divórcio, pela guerra que abafava o mundo e tornava o ar irrespirável. Como nos mitos, o dom trazia consigo a punição. Escrever era para McCullers um gesto vital e devastador, semelhante ao canto das sibilas, que consome a voz a quem lhe dá corpo.

A protagonista é uma menina de doze anos. Doze – idade do limiar, idade órfã, suspensa entre dois reinos. Como Perséfone antes da romã, Frankie já não pertence inteiramente à infância, mas também não conhece ainda o preço da vida adulta. A acção decorre num vilarejo do Sul dos Estados Unidos, lugar imóvel, fechado sobre si, onde o tempo parece pedalar em falso. Três figuras ocupam esse espaço mínimo: Frankie; John Henry West, um primo frágil e prolixo, criança ainda presa ao balbucio; e Berenice, a criada negra, figura de escuta e de saber, sentada na cozinha como uma velha ama trágica, guardiã de histórias e presságios. Nada acontece. E é precisamente isso que acontece: o vazio. Frankie sente-se desligada de tudo, expulsa do mundo como alguém que acordou demasiado cedo. As amigas afastaram-se. O sentido retirou-se das coisas. Resta-lhe a errância interior, esse não saber que fazer da própria vida, comum a todos os adolescentes, chãos como heróis sem destino.

O........

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