Borboletas e leixa-prem para ũa senhor de lonh

A primeira vez que o trovador Jaufré Rudel ouviu falar da princesa de Trípoli não contava sequer dez anos, em meio de uma peste ligeira que com igual presteza levou alimárias e homens, deixando no ar uma mistura de piedade e pavor, pranto e suspiro. Por fins de primavera, viu uma cleópatra, aquela doce borboleta cujas asas de amarelo e laranja lhe fizeram figurar o jardim onde, a oriente, se passeava a princesa.

Os cruzados que vinham de além-mar – em parte causadores da peste – nos olhos traziam desertos e lírios azuis, um fervor ignoto que o cansaço toldava. Jaufré Rudel perguntou-lhes se conheciam e haviam visto a princesa de Trípoli e se era verdadeira a fama de sua maravilhosa formosura.

Ninguém responde a tais perguntas a um menino, senão um outro moço que, bem entrado já na juventude, olha o outro por cima do ombro e mente por desejos de viagem. O embusteiro disse-lhe que, em verdade, a donzela era tão formosa e sedutora que as ramadas das árvores se inclinavam à sua passagem para guardar-lhe a tez no estio e, ao invés, se retraíam para que o sol a tocasse no inverno.

— Viste-a porventura em seu jardim de laranjeiras e limoeiros? — perguntou o trovador, cuidando que a borboleta cleópatra que avistara era, sem dúvida, parte da paisagem que encerrava já o seu amor.

— Não a vi — confessou o embusteiro, estendendo a mão para que Jaufré lhe desse algo —, mas disseram-me que da pele escura dos seus membros dimana uma tepidez aromática, feita daquela casca a que chamam canela, e que as suas coxas se banham em água de rosas e nardo, e que sempre na cabeça traz um diadema de jasmim vivo.

O trovador pôs-lhe na mão uma moeda gasta, e o embusteiro partiu, certo de que muitas vezes a mentira é bem mais........

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