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Artemidoro e o fogo de Alexandria

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18.04.2026

Aquilo que se revela inclina-se sempre para a luz, como se nela encontrasse a sua razão última de existir; mas aquilo que se recorda, fiel às suas raízes mais profundas, prefere a intimidade das sombras, onde o tempo se dilui e os contornos se tornam mais densos e verdadeiros. É nesse limiar – onde a claridade expõe e a penumbra resguarda – que se começa a pressentir um conflito silencioso, ainda latente, mas inevitável: uma tensão cresce, subtil e irreconciliável, entre o uno e o múltiplo, entre a pureza do singular e a dispersão do plural, como se cada dimensão da realidade disputasse o direito de definir o que é, afinal, o real.

Contudo, é nesse território intermédio que a distorção encontra o seu terreno mais fértil: a memória, longe de espelho fiel, curva-se sob o peso da emoção, da linguagem e do desejo. A mentira – não o engano deliberado, mas a inevitável reconfiguração do que nos acontece – infiltra-se nas fissuras do recordar, moldando narrativas que consolam, que justificam, que por vezes protegem. E é por isso que tanto o indivíduo como a comunidade constroem o seu passado não apenas com aquilo que foi, mas com aquilo que se torna suportável lembrar, erguendo sobre sombras e luzes uma verdade instável, onde o que falta pode ser tão decisivo quanto o que permanece.

Uma hora depois de Artemidoro, o guardião dos livros de sonhos e encantamentos, chegou ao umbral da grande biblioteca Amr ibn al-As, o general que seguia as ordens de Omar, um dos quatro califas justos. Como tudo na vida, aquele ano fora bom para uns e mau para outros. O sol ardia no deserto de mirra e incenso, e as chuvas debuxavam na areia velozes arabescos das suas idas e vindas. Alexandria retumbava sob os cascos de incontáveis........

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