menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Anne Carson, Ésquilo e as naus de Salamina

16 0
previous day

Anne Carson, em Grief Lessons — as suas extraordinariamente ousadas traduções de Eurípides — escreve: «Porque existe a tragédia? Porque transbordamos de raiva. E porque transbordamos de raiva? Porque nos revolvemos em lutos.»  E isto é inteiramente verdade: Antígona ferve em cólera porque se revolve no luto pelo irmão Polinices, a quem Creonte recusa os ritos de sepultura. Clitemnestra atira a sua fúria contra Agamémnon porque se revolve no luto pela filha Ifigénia, degolada como uma jovem poldra para garantir ventos favoráveis às velas das naus gregas rumo a Troia. Hécuba enfurece-se com o assassínio da filha Políxena, apenas para descobrir, depois, que também todos os seus outros filhos foram mortos. O luto de Hécuba parece não conhecer limites; no além, dizem-lhe, será transformada num cão.

Poderíamos ainda, à lista de Carson, acrescentar uma pergunta adicional: se a tragédia é a raiva que nasce do luto, por que razão é tão abundante o luto em nós? Porque vivemos ensopados em guerra e porque muitas pessoas foram mortas. A tragédia talvez possa definir-se como uma raiva entristecida que brota da guerra. Vivemos num mundo cuja moldura é a guerra, e em que a justiça parece dividir-se interminavelmente entre reivindicação e contra-reivindicação, direita e esquerda, conservador e progressista, crente e não crente, combatente pela liberdade e terrorista, ou qualquer outra clivagem análoga. Cada lado acredita, sem hesitação, na justiça da sua posição e na falsidade — ou, como tantas vezes se diz, na maldade — do adversário. Tal crença legitima a violência, uma violência destrutiva que, em resposta, desencadeia a contra-violência. Parecemos presos a um ciclo de vingança sangrenta, encerrados em círculos viciosos de luto e raiva produzidos pela guerra.

Quantas vezes não é mais do que isto o que, no nosso tempo, parece chamar-se política internacional? E é aqui que, creio, uma reflexão sobre a tragédia grega........

© Observador