Prato do dia: Lula à moda da casa
Como as utopias têm a exasperante mania de degenerarem em distopias, a política tende a ser a arte do possível, e uma estoica escolha do mal menor (com o nariz devidamente tapado). No Brasil, com o pingue-pongue Lula/Bolsonaro em looping perene, até o mal menor é XL. E não consola que um deles esteja preso, pois o outro também esteve e não mudou uma vírgula. E tão-pouco adianta suspirar “venha o Diabo e escolha”, pois com esses dois é óbvio que o Demo tem toda a culpa no cartório.
Numa cerimónia no Palácio do Planalto (sede do Executivo), o presidente Lula da Silva mostrou literalmente o dedo do meio. “A gente vai acabar com essa história de que pobre não gosta de coisa boa. Gostamos, sim! Aqui para eles, ó!” E pumba: o “pai-de-todos” em riste, brandido para os ecrãs. A baixaria, incompatível com a dignidade de um estadista, é típica de Lula (e de Janja, a primeira-dama, que também já espumou: “Fuck you, Elon Musk!” – quando este fazia parte do gabinete Trump).
A obscenidade rasca de Lula escamoteia o facto de que o seu partido, o PT, governou o Brasil por 18 dos últimos 24 anos. A 100 dias de uma eleição em que mais uma vez é candidato, o que fará num quarto mandato para melhorar a vida dos brasileiros que já não tenha feito, ou sobretudo deixado de fazer, nesses anos todos no poder? Passo.
Mas aquela ordinarice chunga tem mais um parte errada – e uma certa. Lula não é pobre há éons. Cheio da massa, não só gosta como conhece o bem bom como a palma da mão. Numa visita recente à França, ele e sua Janja hospedaram-se na exclusiva Suíte Eugénie do hotel Inter Continental Paris Le Grand, um duplex de 250 m² com cozinha privativa, quatro quartos (camas king-size com lençóis de algodão egípcio e um “menu de almofadas”) e mobília Segundo Império. Sim, foram os contribuintes brasucas que pagaram a farra, mas o atrelado escolhido a dedo é realmente de connaisseur.
Recentemente, a direita sul-americana venceu as eleições no Chile, Equador, Bolívia, Peru e Colômbia, sem falar que na Argentina Milei está a domar o crónico dragão da inflação, e Maduro apodrece numa prisão nos EUA (vá lá: Delcy e Jorge Rodríguez, os Irmãos Sinistros, continuam impávidos na Venezuela). Na Nicarágua, o ditador Ortega (unha e carne com Lula), que está no poder desde 2007, já avisou que não haverá eleição para ninguém (na anterior, em 2021, o tirano prendeu os 7 candidatos da oposição – assim, até eu!).
Lula está fulo com as tarifas que Trump acaba de aplicar a 4 mil produtos brasileiros (menos o café, o aço, o ferro, farmacêuticos e a carne). A Casa Branca alega “deslealdade” no comércio bilateral (o Brasil é protecionista), e até o desmatamento da Amazónia. Esta última razão deveria enternecer os progressistas, se Trump não fosse o seu atual Belzebu. O primeiro-ministro Keir Starmer, também de esquerda, negociou com o Anticristo e safou a Grã-Bretanha das tarifas.
Lula prefere pirraças, e até aventou o risco de os EUA invadirem o Brasil militarmente. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, declarou que sarilhos internacionais justificam o país considerar a tecnologia nuclear também “para a defesa nacional”. O Brasil não ratificou o TPAN (Tratado para a Proibição das Armas Nucleares). O desenvolvimento de armas atómicas é proibido pela Constituição, mas Lula fala grosso: “Votei pela não proliferação de armas nucleares porque as nações com arsenais atómicos prometeram desativá-los. Alguém cumpriu? E a nossa indústria da defesa está rota”. (Pausa para a hidratação do cronista – que também irá benzer-se.)
Num áudio vazado numa reunião do G7, Lula disse que o mundo não é de esquerda, e que ele próprio nunca foi esquerdista. Já em de 2003, na Venezuela, no seu primeiro mandato, ronronou: “Nunca gostei (passe o cacófato) de ser rotulado de esquerda. Se sou comunista? Sou metalúrgico”. Hugo Chávez piscou-lhe o olho maroto, enquanto cozinhava o “socialismo do século XXI“ (obrigando 8,6 milhões de venezuelanos a fugirem do país para não morrerem à fome).
O mundo........
