menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O século XXI é o mais pindérico de sempre?

17 0
09.07.2026

Sim, a concorrência é renhida, mas o século XX é um candidato respeitável ao mais infame da história, com o totalitarismo, o Gulag e o Holocausto. E olhem que o século passado foi minorquinha: começou em 1914 (com a I Guerra Mundial e o fim da Belle Époque) e acabou em 1989 (com a queda do Muro e o fim da Guerra Fria).

George Orwell e Aldous Huxley assinaram aguçadas denúncias daquelas distopias, mas discordaram no diagnóstico. Orwell descreve uma sociedade controlada pela coerção e pela censura (aquilo que detestamos). Huxley apresenta uma sociedade domesticada pelo prazer e o entretenimento (aquilo que amamos). No desfecho de “1984”, Orwell capitula: “A escolha do género humano era agora entre a liberdade e a felicidade, e, para a grande maioria, a felicidade era preferível.”

Em “Blank Space: A Cultural History of the Twenty-First Century’’,  W. David Marx alega que no século XXI não corremos o risco de ser felizes: ele será chato e comprido. Pois a cultura descambou num piloto automático, que vira o disco e toca o mesmo (e aquela musiquinha de elevador).

Há dez anos, Alex Ross, crítico da “New Yorker”, já carpiu que “a Internet não cumpriu sua promessa de diversidade cultural”. Em 2023, Jason Farago, no “New York Times”, assinou embaixo: “Percorremos quase um quarto do caminho do que será o século culturalmente menos inovador desde a invenção da imprensa”. The Atlantic choramingou na primeira página: “Esta é a pior era cultural de sempre?”. A New York Magazine lançou a sua “Edição Estúpida”, especulando: “2025 é o ano mais parvo já registado?”, e indicando  “12 sinais de uma cultura em declínio”.

W. David Marx contrasta tal insipidez com o frenesi criativo dos primeiros 25 anos do século XX e sua ementa de guloseimas estéticas: Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo. E não foram apenas pirotecnias cosméticas, mas reconfigurações no modo como a consciência humana percebia o seu cantinho no cosmos.

Claro que obras continuam a ser servidas. Hoje 300 milhões de terráqueos intitulam-se “criadores de conteúdo” – a maioria a produzir pastiches que já pressagiavam as fancarias velhinhas em folha da IA. Como as incontinentes reciclagens seriais (“Star Wars”, episódio bilionésimo), ou os enésimos avatares do Batman e do Homem-Aranha, sintomas da nossa adolescência senil.

Os anos 2000 nem sequer mereceram uma etiqueta conceitual: são, bem, “os anos 2000”. Para o filósofo italiano Franco Berardi, houve um “lento cancelamento do futuro”. O musicólogo Leonard B. Meyer comparou a estagnação cultural com as moléculas no movimento browniano: atividade febril, mas aleatória e errática – muita parra para nenhuma uva. Andamos em círculos como sonâmbulos, no torpor de experimentarmos “tudo em todo o lado ao mesmo tempo” (aliás, o título daquele filme besta que recebeu o Oscar). Miríades de memes nas redes sociais gozam com o millennial que “assiste ao 173º evento histórico único na sua vida”. O veredito de W. David Marx é patibular: “Ao passarmos a pente fino o primeiro quarto do século, sentimos o que está a faltar — há um espaço em branco onde dantes havia arte e criatividade”.

O conceito de vanguarda já tinha pifado – na arte contemporânea o foco mudou da ruptura para a desconstrução e o diálogo com o mercado e a tecnologia. É bem verdade que as humanidades (arte, filosofia, literatura) e a ciência não prosperam da mesma forma. Um clássico é aquela obra que jamais deixa de vender o seu peixe, pois a cada geração transmite uma nova mensagem. O........

© Observador