Do olé e da ola ao glu-glu
Confesso que, geopoliticamente, não sou carne nem peixe. Não que seja vegano, credo! Só por cima do meu cadáver: ou melhor, dos mastodônticos nacos de bacalhau ou picanha empilhados no meu prato. É que, tendo nascido em São Paulo, filho de descendentes de portugueses, vivi em Portugal a maior parte da minha vida, até há uns anitos ter regressado à base. Esse hibridismo reflete-se no facto de que os meus livros (14 até agora, e mais 2 no forninho) são escritos no português europeu (pelo menos, imagino…) e publicados originalmente por editoras lusas.
Foram os franceses a inaugurar a expressão “América Latina”, quando em 1863 o imperador Napoleão III espreitou o México com mais olhos que barriga. E com a desculpa esfarrapada de que o Francês e o Espanhol eram línguas latinas, impingiu aos Mexicanos um príncipe… austríaco (a lógica da batata!), Maximiliano. Mas o monarca fake deu para o torto, e acabou fuzilado pelas tropas republicanas do presidente Benito Juárez, o primeiro estadista indígena das Américas.
“América Latina” é uma barafunda semântica: o que há em comum entre um gaúcho dos pampas, um surfista de Ipanema, um geek da Cidade do México, um chef de cuisine de Lima (a culinária peruana tem uma galáxia de estrelas no Michelin, com alguns dos melhores restaurantes do mundo) e um haitiano praticante de vodu? Nicles. O menu é variado. Como notou o talentoso autor chileno Alejandro Zambra, ao observar que o seu – como Portugal – é um país de poetas: “Ser um poeta chileno é como ser um chef peruano ou um futebolista brasileiro ou uma top model venezuelana”.
Mas há ranços que os latino-americanos partilham (sobretudo os progressistas), como o fetiche mórbido por catástrofes tal como o massacre dos índios e a escravidão. No período colonial só houve opressão mefistofélica e não se fala mais nisso. Por isso, a cultura local tem que ser choramingas. E deve exorcizar o capitalismo, pois o comunismo é muito mais fixe (conquanto só no século XX tenha causado a morte de 100 milhões de terráqueos). Toda a responsabilidade das vicissitudes regionais foi, é e será eternamente do colonialismo (europeu) ou do neocolonialismo (EUA), embora os latino-americanos sejam independentes há mais de dois séculos.
E convém cultuar santos do pau carunchoso (Perón, Guevara, Fidel) com estátuas equestres, carinhas larocas em T-shirts e hagiografias embevecidas. Como o melodramático “As Veias Abertas da América Latina’, de 1971, do uruguaio Eduardo Galeano, clássico do maniqueísmo panfletário, que o próprio autor renegou em 2014, admitindo que hoje nem ele leria aquela fantochada. O que não impediu Hugo Chávez de mimosear um exemplar a Barak Obama (felizmente, uma edição em castelhano, de que Obama não percebe patavina).
O outro lado da moeda é o complexo de inferioridade latino-americano, sedimentado no rótulo pejorativo “cucaracha” (barata), ou no conceito do autor brasuca Nelson Rodrigues: “complexo de vira-latas” (cão rafeiro).
O próprio Simón Bolivar, que liderou Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela à independência, suspirou: “A melhor coisa a fazer na América Latina é ir-se embora”. Apesar de toda a exuberância caliente, é sugestivo que as duas obras literárias latino-americanas mais icónicas sejam “100 Anos de........
