A Questão Laboral na Sociedade Administrada
Marx, ao analisar a cidade industrial, identificou duas grandes questões urbanas na base das desigualdades e da exploração: a “questão laboral” e a “questão da habitação”. Dessa consciência emergem, respetivamente, os sindicatos e o movimento cooperativo como respostas às assimetrias profundas desses dois mercados — o do trabalho e o residencial.
Mas o mundo urbano tornou-se progressivamente mais complexo ao longo do século XX. Os serviços substituíram largamente a indústria nas cidades e, na sequência da crise de 1968 e da celebração do centenário da publicação de O Capital, Henri Lefebvre escreveu o célebre ensaio O Direito à Cidade. Nesse texto, Lefebvre argumenta que a cidade, no seu todo, se transformou numa espécie de fábrica: uma máquina de produção de espaço para consumo coletivo, atravessada por múltiplos mercados sobrepostos. É a própria cidade, nesse emaranhado, que passa a produzir desigualdades. A cidadania real deixa então de ser apenas jurídica ou formal e passa a depender da posição social de cada indivíduo face a esses mercados urbanos.
Hoje, para além do mercado de trabalho e do mercado imobiliário — e das relações cada vez mais intrincadas entre ambos —, é indispensável considerar o peso dos mercados da educação, da saúde e, em menor grau, da cultura. Estes mercados não operam sobre indivíduos abstratos, mas sobre agregados familiares concretos: com horizontes de expectativa, projetos intergeracionais, aspirações dos mais novos e relações de dependência associadas ao cuidado dos mais velhos. O reforço do individualismo como condição para um maior dinamismo do mercado laboral entra, assim, em tensão com uma tradição mais coletivista, marcada pela ligação à família e aos lugares, que continua a caracterizar a sociedade portuguesa.
A esta complexidade acresce, a partir do final da década de 1960 na Europa, uma transformação estrutural adicional: a sobreposição, em cada cidade, de uma sociedade transnacional sobre a sociedade local e nacional. Portugal só segue esta trajetória nos........
