A Administração da Saúde e o INEM/SNS
O monstro da Administração da Saúde
Tendo em conta a situação limite que se está a atingir na Saúde como instituição central da nossa vida colectiva, requerer-se-ia um espaço público de reflexividade profunda. Ao invés, o tempo político, em que os meios (campanhas eleitorais) se tornaram fins e omnipresentes enfatizam uma cultura de ‘sociedade administrada’ avessa a um verdadeiro espaço público reflexivo. Restam os sound bites que não são senão ruídos politico-partidários que só funcionam como caixa de ressonância dos monstros administrativos que eles próprios criaram.
A Administração da Saúde é um monstro que implicaria uma completa reescrita. Apesar de tal ser já (quase) impossível não percebemos o monstro que criámos senão identificarmos os problemas centrais. O sistema criou-se de forma desde logo invertida, centrando-se numa lógica que privilegiou a doença à saúde, o tratar ao cuidar, os cuidados secundários aos cuidados primários, os hospitais aos centros de saúde, os médicos aos enfermeiros e outros profissionais de saúde, as especialidades particulares à medicina e enfermagem familiares, as tarefas às populações, os espaços em que os doentes estão inconscientes ou a morrer (Bloco e SU) às comunidades em que os cidadãos precisam de manter a saúde e qualidade de vida. Tudo isto teve consequências culturais, quer ao nível da população, quer ao nível dos profissionais.
De forma crucial, a hierarquia corporativa do poder médico impôs-se sempre mantendo um controlo férreo sobre a formação, colocando o saber médico muito acima de uma ‘caixa de ferramentas’ humanitária, formando profissionais de qualidade, mas incutindo-lhe em demasia a ideia de elite, e com tudo isso criando horizontes de expectativa em termos económicos e sociais que se goraram demasiadas vezes (pelo menos em Portugal e no sector público), criando problemas na humanização de cuidados e dificultando tantas vezes a necessária criação de equipas multidisciplinares de verdadeira cooperação horizontal. E, portanto, problemas graves à gestão das instituições e a uma correcta e eficaz gestão da Saúde, enquanto estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.
Toda essa hierarquia corporativa teve consequências ineludíveis desde logo na enfermagem como profissão, mas também noutras áreas da saúde (por exemplo a psicologia), pouco........
