O legado do Ocidente

Talvez tenha sido Hollywood a fazer-nos perder o sentido mais antigo da palavra paixão. Associada hoje a amor e felicidade (como se a finalidade da vida fosse estar em constante estado de paixão), estar apaixonado significa, na verdade, estar em sofrimento. Do latim passio (-onis), paixão significa a ação de sofrer ou suportar (e daí falarmos da Paixão de Cristo), contendo também a ideia de estarmos sujeitos aos desejos do corpo e de nos tornarmos, nessa medida, incapazes de tomar decisões calmas e refletidas.

É esse sentido da palavra que encontramos na Ilíada e na Odisseia sobre as paixões que subjugam tanto os homens como os deuses. A primeira começa com a palavra “cólera” (a de Aquiles); a segunda com a palavra “homem” (Odisseu ou Ulisses) que se encontra na condição de sofredor. Aquiles, sujeito à cólera, atrai a si o terrível sofrimento pela morte de Pátroclo e a sua própria morte; Odisseu, sujeitando-se tantas vezes a paixões e curiosidades, atrai um caminho de provações.

E que paixões são essas que movem os homens e os deuses e fazem mover a história? O anseio de glória e reconhecimento, claro; mas também o ciúme, a inveja, o ressentimento, a ofensa; e a paixão que quase sempre é despertada por todas as outras: o desejo de vingança. É o desejo de vingança que move os gregos contra os troianos, para vingar o rapto de Helena. É o desejo de vingança que move Aquiles contra Heitor. E é o medo da vingança que move Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o pequeno Escamândrio, ou Astíanax, filho de Heitor e Andrómeda.

De acordo com o código moral da altura, caberia a Astíanax vingar a morte de seu pai e é por isso que, de acordo com a versão mais popular, Neoptólemo atira a criança das muralhas de Troia: estava, preventivamente, a defender a sua vida. E é de acordo com a convenção de que os filhos devem vingar a morte dos pais que Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra,........

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