A culpa do homem branco

Regressemos a Odisseia. Lembramo-nos com facilidade das aventuras e provações de Ulisses durante a viagem e, provavelmente, do modo como ele matou os pretendentes que, em Ítaca, abusavam da hospitalidade, ocupando o seu palácio enquanto aguardavam a decisão de Penélope. Até nos podemos lembrar daquele que é considerado o momento mais emotivo do texto: que o seu velho cão foi o único a reconhecê-lo quando chegou a Ítaca e que esperava o dono para morrer. Mas nunca nos lembramos das escravas.

Aquelas doze escravas que terão desonrado Ulisses envolvendo-se com os pretendentes. Essas sobre as quais Ulisses diz a Telémaco:

“devereis abater as escravas com as longas espadas, até que a vida
as abandone e se esqueçam dos prazeres de Afrodite,
que provaram, deitadas em segredo com os pretendentes.”

Essas que Telémaco, em vez de matar com a espada, colocou em fila com uma corda à volta do pescoço:

“Espernearam um pouco, mas não durante muito tempo.”

É sobre esta imagem que Margaret Atwood escreve a sua Odisseia de Penélope. Sobre as escravas que foram julgadas por Ulisses como se fossem livres de resistir ao poder dos homens. Como se tivessem outra hipótese.

“do céu, trono e rua
com donas andaste,
teus zelos calmaste
nós menos pecados
tínhamos do que tu
e mal nos julgaste”

Também nos lembramos com facilidade de Circe como a feiticeira que transforma os homens em porcos, magia que encerra a condição humana num corpo degradante como um escafandro do qual não conseguem escapar. E Ulisses aparece, assim, na nossa memória como........

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