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A vitória do patriarcado /premium

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05.08.2019

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu De Revolutionibus Orbium Coelestium em 1543 colocou à nossa disposição um exercício mental muito mais do que uma experiência científica. Como Immanuel Kant notou no prefácio da segunda edição de Crítica da Razão Pura, “não podendo prosseguir na explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis” (FCG, 2008). Foi isso que Kant tentou fazer na sua obra magistral e talvez através do mesmo tipo de exercício seja possível interpretar, enquadrar e compreender as reivindicações feministas mais radicais do nosso tempo.

De facto, nunca como agora o espaço público se encontrou tão preenchido de preocupações, exigências e vocabulários feministas. Um longo caminho foi percorrido desde a primeira vaga que culminou na vitória do movimento sufragista. De inspiração fortemente liberal, esta primeira onda visava a aquisição de iguais direitos políticos e cívicos para as mulheres, com destaque para o direito ao voto, dentro do sistema de democracia liberal. A segunda vaga começará na década de 1960, inicialmente integrada no movimento pelos direitos civis mas progressivamente tornada mais radical pela New Left norte-americana. Em causa estava, sobretudo, a questão do corpo, desde os chamados “direitos reprodutivos” à contestação à objetificação da mulher. São os tempos da queima de soutiens e do vestuário mais masculino; mas são também os tempos da introdução de um vocabulário centrado em conceitos como patriarcado, opressão e a sua comunhão com o capitalismo. Note-se como de um feminismo que ambicionava a conquista de direitos liberais para as mulheres se dá a passagem para um........

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