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CR7 e a viagem à volta do mundo /premium

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16.03.2019

Por uma feliz coincidência, duas notícias relativas a dois portugueses de grande prestígio internacional foram, esta semana, manchete na imprensa nacional. Refiro-me à última proeza futebolística de Cristiano Ronaldo e à viagem de circum-navegação protagonizada, há quinhentos anos, por Fernão de Magalhães.

O capitão da selecção portuguesa de futebol, que joga agora na Juventus, depois de ter sido, durante vários anos, jogador do Real Madrid, marcou três golos contra o Atlético, também clube da capital espanhola. Acrescenta assim mais um troféu ao seu bem guarnecido palmarés: é agora, na história Champions, quem mais golos marcou. Não é pequeno consolo para quem é o melhor jogador de futebol do mundo, salvo parecer contrário da muito patrioteira e pouco ‘Real’ Academia da História espanhola.

Com efeito, a propósito dos quinhentos anos da primeira viagem de circum-navegação, que agora ocorrem, a dita Real Academia da História emitiu um comunicado, no passado dia 10, em que afirma que “é incontestável a plena e exclusiva autoria espanhola” dessa expedição marítima.

É curioso que supostos historiadores declarem, ex cathedra, que uma determinada tese científica é “incontestável” porque, se o fosse, não teria contestação possível, logo não seria preciso dizê-lo. Portanto, se se afirma que é “incontestável”, é de supor que o não é … A Real Academia da História pretendeu, através de um pronunciamento autoritário, impedir uma discussão que, ao contrário do que fez crer, é cientificamente pertinente.

É razoável que as questões de fé não sejam, para os crentes, discutíveis, mas as conclusões dos conhecimentos humanos são sempre questionáveis: muitas conclusões científicas, tidas por incontestáveis, como o geocentrismo, foram depois cientificamente desmentidas. A história, como ciência social, está sujeita a esta dialéctica e, por isso, não há questões históricas que sejam incontestáveis: cabe sempre a possibilidade de uma melhor explicação do passado.

É problemática a autoria de uma viagem à volta do mundo, que implicou muitos meios humanos e materiais. Decerto, é determinante a identificação do Estado proprietário das naus que realizaram essa viagem, bem como a origem dos fundos que a subsidiaram, mas não é menos relevante a nacionalidade do seu principal agente. Ora, se foi Castela a nação empreendedora desse feito, foi seu protagonista Fernão de Magalhães, cidadão........

© Observador