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Virar o bico, culpar o prego

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07.05.2026

Há uma tendência curiosa nas nossas conversas públicas e privadas: quando algo corre mal, não se procura a origem; procura-se o eco. O eco é mais cómodo. É audível, é visível e, sobretudo, é recente. O que veio antes exige memória, contexto e algum incómodo — três coisas que, convenhamos, nem sempre cabem na agenda.

Assim se explica um fenómeno recorrente: alguém é pressionado, desconsiderado, empurrado para um limite qualquer; depois reage. E é nesse momento, precisamente nesse, que a sala acorda. Não para o que aconteceu, mas para a forma como foi dito. O tom, esse grande protagonista da moral contemporânea, entra em cena com a autoridade de quem decide o guião.

É notável a eficiência do método. Em vez de discutir o problema — que pode ser complexo, enfadonho e até exigir responsabilidade — discute-se a reação, que é simples, imediata e, regra geral, condenável.........

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