Universidade Católica: quando a missão fica para depois

Há instituições que não precisam de renegar a sua identidade para a perder. Basta irem adiando-a. Um dia, adiam um curso. Noutro dia, adiam uma prioridade. Depois, adiam uma resposta, uma escuta, uma presença, uma decisão. E, quando se dá por isso, a missão continua escrita nos documentos, mas já não se sente na vida concreta.

A Universidade Católica Portuguesa tem um nome exigente. Não é uma universidade privada qualquer com uma designação simpática. Não é apenas uma marca académica bem posicionada no mercado do ensino superior. Chamar-se Católica significa assumir uma determinada visão da pessoa, da cultura, da educação, da verdade, da beleza e do serviço. Significa formar bons profissionais, sim, mas não só. Significa formar pessoas inteiras. Significa saber que uma universidade não existe apenas para vender cursos, captar alunos e entregar diplomas.

A pergunta incómoda é esta: a Universidade Católica quer continuar a ser uma universidade com missão ou aceita tornar-se um mercado de cursos com vocabulário humanista?

Não há problema nenhum em investir na Business School, na gestão, na economia ou em áreas que atraem mais alunos e mais prestígio. Nenhuma universidade vive de vento e piedosas intenções. É legítimo procurar sustentabilidade, reconhecimento, empregabilidade e qualidade. O problema começa quando os cursos mais rentáveis e mais vistosos passam a determinar a lógica interna da instituição, enquanto as áreas que mais se ligam à sua identidade ficam empurradas para a margem.

Uma universidade católica não se mede apenas pelas escolas que dão mais retorno. Mede-se também pelo modo como cuida daquilo que não é imediatamente lucrativo, mas é essencial: teologia, artes, humanidades, música sacra, conservação e restauro, património, pensamento crítico, cultura cristã. É aí que uma instituição católica devia mostrar a sua diferença. Se apenas repetir o que todas as outras repetem — inovação, mercado, impacto, internacionalização, empregabilidade — então talvez seja eficiente, mas dificilmente será necessária.

A Escola das Artes é, neste ponto, um caso simbólico. A Universidade Católica teve uma formação em Música Sacra. Não era um luxo académico. Era uma necessidade cultural, litúrgica e eclesial. Num país onde tantas comunidades cristãs vivem uma pobreza musical evidente, onde a liturgia tantas vezes oscila entre o improviso e o mau gosto, onde faltam organistas, directores de coro e formação séria, seria de esperar que uma universidade da Igreja defendesse esta área como prioridade. Em vez disso, a Música Sacra desapareceu da oferta visível e o centro da atenção deslocou-se para outros campos: Som e Imagem, Cinema, audiovisual, galerias, exposições, linguagens contemporâneas.

Repito: não há nada de errado........

© Observador